top

 

 

 

As aparências enganam...

 

 Martha Argel  

 

 

Era uma daquelas noites típicas de julho, gelada e seca, em que o ar corta os pulmões da gente a cada respiração. O céu estava tão estrelado que a lua, nova por essa época, nem fazia falta; daria para ler um jornal só com a luz das estrelas, se os jornais chegassem naquelas lonjuras. O inverno tinha calado os grilos e espantado para terras mais quentes quase todas as aves noturnas. A paisagem parecia ter sido mergulhada em algum líquido conservante escuro e frio, e parecia que ia ficar assim para sempre, imóvel, silenciosa e sem vida.

É em noites como aquela que a gente não só se sente inclinado a acreditar que os discos voadores existem, e que estão visitando nosso planetinha a toda hora, como tem a sensação de que seria um desperdício se não existissem visitantes alienígenas.

Ela foi acordada por um facho de luz que vinha lá de fora através da janela da sala e, passando pela porta de comunicação, iluminava todo o pequeno hall para o qual se abriam os quartos e o banheiro.

Um raio de luz branca, poderoso, que se movia para os lados, para cima e para baixo, examinando tudo e procurando algo.

Ela se arrepiou inteira.

Pensou em cenas dos filmes que tinha vistos às dúzias, na tevê por satélite, desde que viera de tão longe para se instalar neste lugar pequeno e ermo, em busca de algum sossego. Cenas de dar medo, claro que eram ficção, mas deviam ser baseadas em alguma realidade.

Ela se levantou da cama quentinha e arriscou um olho pela porta que dava para a sala. Não conseguia ver nada por causa da luz, que passeava pela sala inspecionando móveis e paredes.

Ouviu vozes lá fora. Eram dois, e de vez em quando trocavam alguma idéia incompreensível em voz baixa.

Ela fechou os olhos, pensou por uns instantes no que devia fazer naquela situação e chegou a uma conclusão. Preparou-se com cuidado, com pressa mas com perfeição, e assim que se sentiu pronta, com dois passos penetrou no facho de luz.

Alguém lá fora se engasgou de espanto quando aquela louraça belzebu completamente nua foi iluminada em cheio e em todos os seus generosos detalhes.

A luz se apagou de repente.

Quase ao mesmo tempo, um outro raio atravessou a janela da sala. Desta vez, de dentro para fora. Bem mais violento que um facho de luz. Um raio que fundiu os vidros e que transformou em cinzas, no ato, os dois ladrões pés-de-chinelo e seu silibim de bateria de moto.

Ela deu um suspiro de alívio. Agora talvez terminasse a onda de roubos a sítios naquela região que, fora isso, era tão tranqüila.

De volta para a cama, ela se espreguiçou, relaxou a musculatura e deixou-se voltar ao normal. Aninhou entre as cobertas ainda quentes todo o corpo extremamente plástico. O grande pé deslizante, a volumosa massa visceral e os dez tentáculos, tanto os oito dos olhos quanto os dois que produziam raios. Mudar de forma assim de repente dava uma canseira…

Amanhã dou um pulo na cidade e compro vidros novos, pensou enquanto mergulhava devagar em um sono gostoso.

 

  

São Paulo, 15 de junho de 1999

 

 


 

Este conto está incluído da coletânea Olhos de Gato, publicada pela primeira vez em 2000 e re-editada em 2005 (ed. Writers).

 


 

 

alto da página

Meus contos   Olhos de Gato