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O mal que as estatísticas ocultam

 

 Martha Argel  

 

 

 

Para Freya

 

Do alto do prédio, acima das luzes da cidade, um vulto examina seus domínios. Nas noites de sexta-feira, a vida pulsa como nunca nas artérias da cidade, que como nunca parecem estreitas demais, poucas demais, para aquele fluxo enérgico, para aquela vitalidade exuberante que sobe até ele como um perfume sedutor e atraente, envolvendo-o, excitando-o.

E a despeito da agitação que cresce dentro dela, a sombra se mantém imóvel, serena na aparência, olhando. Observando. Escolhendo. Planejando. Nos dias de hoje, na era dos computadores e da overdose de informação, mesmo num país de terceiro mundo a gente tem de ser muito cuidadoso.

– o0O0o –

Não podia ser melhor. Quatro chopes na cabeça, deixando-o levemente eufórico. A música, um rock pesado e sujo, num volume alto o suficiente para atrair olhares incomodados nos carros ao lado. A velocidade que consegue dar a sua camionete entre um semáforo e outro. A perspectiva de uma noitada de sexta que vai se estender quase até o amanhecer do sábado.

Ele se sente poderoso. Ele é poderoso. É um líder para o grupo de amigos fiéis, e lhe agrada imaginar-se como uma espécie de príncipe entre eles. Eles dependem dele, e recebem e aceitam suas idéias com o fervor de quem precisa ser guiado, de quem se sente desamparado ao encarar a vida por conta própria. São seguidores, devotos que se metem em qualquer briga a uma palavra sua, que topam um racha a um aceno de cabeça seu, que adotam seu modo de vestir, sua escolha musical, seus gestos e sua forma de reagir diante da vida.

O cara irresistível que fica com a menina que quiser, na festa que quiser, e que consegue dela tudo o que quer. Ele é poderoso. Senhor do mundo assim como o conhece.

A noite é sua, e mal está começando.

– o0O0o –

A sombra vigia seus vassalos, que se movem lá embaixo. Em carros possantes, perseguem uma felicidade fácil. Cavaleiros modernos, com suas armaduras tecnológicas a protegê-los, a transportá-los e a ajudá-los no jogo das aparências e da sedução.

Súditos seus, escravos seus, que nem por um segundo imaginam o quanto estão a sua mercê, o quão frágeis e vulneráveis são para ela, sombra incógnita no alto de um prédio qualquer. Ela, que tem o poder de trazer a morte, a morte que para ela é a vida.

E é assim que a coisa vai continuar. A cidade deve continuar vivendo, pulsando, sonhando, morrendo lá embaixo, totalmente desapercebida daquela presença que tudo vê e que tudo sente. A cidade e seus habitantes devem continuar na convicção e na arrogância de quem acredita traçar seu próprio destino. A sombra acede a isso graciosamente. O poder verdadeiro concede o direito de escolha, e a sombra, do alto de seu castelo moderno, escolheu permitir que seus vassalos acreditem serem poderosos.

– o0O0o –

O modo como conduz sua Blazer verde-metálica o enche de euforia. Um imenso vídeo-game. O cenário, um canyon artificial formado pela sólida muralha de prédios altos, que se alinhavam, um após o outro, de ambos os lados das ruas estreitas do bairro de classe média-alta. Os obstáculos a serem vencidos... claro, todos aqueles otários se arrastando em seus preciosos carrinhos, e que parecem nunca ter coragem de engatar uma terceira, quarta, quinta, que se apavoram e empacam a qualquer luzinha amarela de semáforo. São esses os obstáculos que o desafiam, que devem ser ultrapassados em manobras ousadas, frias, precisas, magistrais. Sua Blazer aproximando-se a distâncias mínimas, para num movimento lateral brusco ganhar o espaço ao lado, e, no tempo que dura uma batida de coração, acelerar, ultrapassar o obstáculo e, quase como se deslizasse de lado, colocar-se a sua frente, novamente com um intervalo ínfimo separando os pára-choques dos dois veículos.

O prêmio a ser conquistado: uma sensação arrebatadora de superioridade, a certeza de estar além dos limites das pessoas vulgares, a convicção de que os outros o olham com admiração e temor.

Como pode ser tudo tão perfeito, como pode ele ter tanto poder? O resultado das manobras, delicadas e complexas, correspondendo sempre e exatamente à sua expectativa. Sempre como ele calculou. Sua precisão, sua capacidade de planejamento o deliciam. Dono e senhor único de seu destino, a vida é precisamente como ele quer que ela seja.

– o0O0o –

No alto do prédio, a sombra observa e, paciente, espera. Não há pressa. A noite quente de verão ainda não chegou à metade. Ah, as fascinantes noites do verão tropical! Muito mais longas que as outras noites, aquelas do verão setentrional, que tão pouco tempo ofereciam para que seu jogo delicioso de vida e de morte fosse jogado da maneira mais perfeita. As noites do verão tropical, tão sensuais na maneira como as pessoas se abandonam ao calor que as envolve. O calor da atmosfera, o calor que vem das outras pessoas, o calor que vem de suas almas.

As noites do verão tropical tornam mais estimulantes a busca, a escolha, a espera. A forma como seu rebanho se embriaga, literal e figurativamente, com o calor e a sensualidade que assaltam a cidade... Isso o leva a um estado de excitação que nunca havia achado possível. O jogo se torna insuperavelmente belo. A escolha de um peão, dentre todos aqueles que se movem no imenso tabuleiro que se estende a seus pés. E quando o eleito o aceita, o acolhe e lhe obedece, o único limite que se impõe a sua satisfação vem dele mesmo, de sua própria presteza em entregar-se ao maior de todos os prazeres. A conquista, a dominação completa.

– o0O0o –

O carro acelera, desvia, ultrapassa, evita na última hora um esbarrão. Basta que ele assim o queira.

A cidade é dele. A noite é toda dele. Sua vida lhe pertence e ele pode fazer dela o que bem quiser, o que planejar. Tudo a que tem direito; a velocidade que quiser, ele alcança; o prazer que quiser, ele consegue; a devoção que quiser, ele recebe de seus amigos e fiéis seguidores.

O final de semana promete.

– o0O0o –

Os movimentos frenéticos e a velocidade insana daquele carro reluzente, distante algumas quadras, mas se aproximando, chamam a atenção da sombra. De imediato ela antevê as possibilidades. Um agradável sentimento de expectativa invade-a no mesmo instante em que entra em ação. Algo lhe diz que encontrou o que buscava.

Seus olhos, muito mais poderosos que os da ave de rapina mais eficaz, esquadrinham o motorista e o resultado da análise não poderia ser mais promissor. É um homem jovem. Pela idade, não é mais uma criança, e no entanto seu corpo belo, saudável e bem cuidado anuncia, através de incontáveis nuanças, inumeráveis detalhes de postura tão óbvios para aquela sombra atenta, que uma vida protegida, segura e fácil não lhe deu qualquer chance de enxergar o mundo através dos olhos de um adulto. A sombra sente a excitação crescer dentro de si. Uma alma sedutoramente infantil e simples, num corpo sedutoramente maduro e sem mácula. O prazer da corrupção da inocência, associado à volúpia da carne.

A sombra fecha os olhos, mas nem por isso perde de vista o objeto de sua atenção. Sua mente está lá, no interior daquela cabina tomada pelo som da música. Um som visceral e atávico. Um ritmo simples e primitivo, com raízes muito, muito antigas, que sobreviveu ao longo processo da evolução cultural humana graças ao fato do ser humano nunca ter conseguido se desvencilhar de sua natureza animal. A natureza animal que também a sombra possui, mais forte até, depois de ter perdido, há tanto tempo, muito do que no passado a caracterizara como um ser humano.

Com sua consciência, o ser predador que é a sombra esquadrinha, meticuloso, o ser humano que é sua presa em potencial. A energia incontrolável da juventude, essa energia que prolongará o prazer da batalha, retardando a rendição total, aguça seu desejo por aquela caça. A ousadia e a temeridade, frutos da inexperiência com os mecanismos do mundo, estimulam-no, pois não existe, em sua compreensão, coisa mais poética do que ver abrir-se a flor do medo onde antes não existia senão um tímido botão. Mas acima de tudo, a ignorância quanto ao poder da morte lhe parece um dos troféus mais tentadores que poderia cobiçar, pois carrega dentro de si a promessa incomparável da revelação final. É perfeito.

Uma contração involuntária da musculatura, a respiração presa por um momento súbito e fugaz, esses são todos os sinais externos que assinalam o momento em que a sombra fez sua escolha. Sinais que não refletem de forma alguma a agitação e o deleite absolutos que vão por sua alma caçadora.

– o0O0o –

Entre uma ultrapassagem e outra, ele sente algo esquisito. Deve ser o chope que não caiu bem, pensa. De repente uma agitação toma conta de sua mente. Uma inquietação, como quando a gente lembra que alguma coisa desagradável aconteceu ou que um pensamento incômodo passou por nossa cabeça mas não consegue se recordar exatamente do que se trata.

Ele chacoalha a cabeça, apertando os olhos numa careta, para ver se se livra daquela coisa incômoda.

– o0O0o –

A sombra vai-se virando à medida que o carro passa, lá embaixo, na frente do prédio que serve como ponto de observação, os olhos verdes e brilhantes novamente seguindo a camionete, fixos em sua presa. Sua concentração é total. Nem bem o carro passa, em um movimento inesperado ela parece levantar vôo, na mesma direção e na mesma velocidade que o veículo, rumo ao terraço do próximo edifício. No breve instante que antecedeu sua partida, ela esteve voltada para a lua, e por um momento deixou de ser uma sombra, quando a luz fraca do quarto minguante se refletiu no branco imaculado de seu rosto, de seus lábios e de dois caninos longos e afiados.

A caçada começou.        

– o0O0o –

A sensação ruim não diminui. Pelo contrário. Uma angústia cada vez mais forte parece dominar aquele que poucos minutos atrás se sentia como o mais poderoso dos homens. Que que é isso, meu Deus, o que está acontecendo, que coisa horrível, por quê, por quê? E enquanto isso, a Blazer parece adquirir vida própria, e continua as manobras arriscadas, numa velocidade imprudente.

Todo o domínio que até há pouco pensava ter sobre sua vida desapareceu sem explicação. Não é a única coisa inexplicável que ele sente; ele também não consegue explicar como, de uma hora para outra, ele não é mais um único. Foi-se a conexão entre o que ele sente e o que ele faz. Imperturbável, ele continua dirigindo sua Blazer através do vídeo-game da realidade, superando os obstáculos como se isso fosse uma brincadeira virtual e não uma irresponsabilidade mortal. Mas ao mesmo tempo ele vê e compreende que o que está acontecendo não poderia acontecer, que aquilo está indo muito além do que deveria. E que ele não tem qualquer controle sobre a situação.

Ele dirige com prazer. Poder sobre a máquina e poder sobre seu destino.

E então ele, seu outro ele, aquele que está impotente perante o que ele mesmo faz, aquele que aterrorizado observa a si mesmo, de súbito aprende algo assustador. Pânico. Ele compreende o significado da palavra pânico, que antes só vira nos telejornais, nos filmes de catástrofe, nas letras de música. O pânico, que ele se dá conta jamais havia conhecido, e que agora está conhecendo.

O inexplicável não pára por aí. Também de repente, agora ele é três. Ele, dirigindo feito um alucinado. Ele, entregue ao mais profundo terror, que nunca havia experimentado antes. E ele, um novo ele, tranqüilo, maravilhado com o fato de ter feito uma descoberta tão importante, sentindo a paixão que os cientistas devem sentir ao entender alguma nova e até então oculta verdade do mundo.

Ele é, agora, três, irremediavelmente juntos, presos dentro de um só corpo, e ao mesmo tempo irremediavelmente separados, em diferentes universos de emoções.

Ele, dirigindo cada vez mais destemido, cada vez mais embriagado com a emoção do risco inconseqüente.

Ele, mergulhando cada vez mais no pânico negro e viscoso. Cada vez mais e cada vez mais, até atingir o que parece ser o fundo, onde todo o medo que sente se condensa numa única certeza, a certeza de que a morte é inevitável, que ela está ali a sua espera e que está incrivelmente próxima.

E ele, mais uma vez maravilhando-se com a descoberta do conhecimento. A descoberta de que de fato a morte existe. Que ela não é só um produto da ficção, ou aquilo que mantém ativos os cemitérios e as funerárias. A morte existe de fato, e ele está a ponto de experimentá-la, a última e máxima descoberta que a vida nos proporciona.

Repentinamente, ele sente que não está sozinho. Algo, alguém, não junto mas dentro dele, uma situação inconcebível. Como descrever o terror disso? Já é assustador perceber que há alguém nos olhando quando nos julgamos sozinhos, como não será descobrir alguém dentro de você, alguém que não se satisfaz com compartilhar de suas emoções, mas que se aproveita e se deleita com elas?

A parte dele que conhece o pânico torna-se histérica, demente. Como fugir de algo que está dentro de si mesmo?

– o0O0o –

A presença que se aninha no interior dele é a consciência daquele figura assustadora que corre, salta, voa de prédio em prédio, acompanhando a trajetória alucinante do carro. Acomodada com luxúria no meio do tumulto de emoções do rapaz, ela se delicia e se sacia com toda e cada uma delas: com a audácia, que empurra o pé do jovem até que o acelerador toque o fundo; com o pânico que, semeado na alma antes intocada pelo medo profundo e absoluto, germinou vigoroso e agora a envolve inteiramente, como os fios de seda que tornam indefesa a vítima da aranha peçonhenta; com a compreensão irremediável de que a morte o ronda; com a recém-adquirida consciência quanto à beleza infinita do mundo; com a revolta suprema de perder tão cedo toda essa beleza.

A presença saboreia de forma obscena tudo aquilo que ela transformou dentro do jovem, tudo aquilo que foi desencadeado no momento em que ela o violentou da maneira mais completa possível, tomando posse de suas sensações e corrompendo-as. Dividindo-lhe a consciência e as forças, para conquistá-lo como um todo.

– Isso, minha criança, debata-se. Lute e resista em vão. Sofra e me alimente com a intensidade de seu sofrimento. Faça-me pleno, sacie meus desejos. Satisfaça minha sede. Minha criança, meu homem, meu amante, meu escravo...

O prazer é exacerbado pela resistência inesperada do jovem. Pela tentativa atormentada de fugir da invasão incompreensível, da violação completa da intimidade, da presença inexplicável que o força a compartilhar com ela o que tem de mais íntimo e mais valioso: ele próprio. O predador desejava essa batalha, mas não acreditava que a alma de criança de sua presa a travaria. Maravilhosa a rapidez com que o espírito infantil atinge a maioridade quando deparado com a constatação desesperada de que a morte está no presente e não no futuro!

O espírito do jovem se debate enquanto a presença expõe os medos, segredos e vergonhas que ele ocultou de si próprio durante toda sua curta vida. Insaciável, o predador se alimenta e degusta todas as reações aterrorizadas aos horrores que ele cria ao profanar e deturpar os desejos e sentimentos que vai encontrando. Ele se banqueteia com a orgia de emoções que o jovem lhe oferece, e com a resistência, oh, tão aterrorizada, tão provocante, tão deliciosa, tão... fútil.

A batalha e o festim aguçam-lhe ainda mais o apetite. A expectativa do clímax, da inevitável vitória final, é quase insuportável.

Deliciada, uma parte de sua consciência, aquela que lá no alto acompanha o vulto ágil que se move sem dificuldades de um prédio a outro, vê para onde se dirige a camionete. Ela percebe que a situação está maravilhosamente perfeita, que nem nos sonhos mais doces o momento crucial se aproximaria com tanta precisão. Em perfeita sincronia, corpo e consciência do predador se prepararam para um desfecho sublime.

– o0O0o –

O carro atinge uma velocidade que não tinha atingido antes. Parece um milagre que tenha chegado até aqui. Mas poucas dezenas de metros à frente está o cruzamento com a avenida. Os três eles que agora formam o jovem vêem a luz do semáforo mudar lentamente, do verde para o amarelo, do amarelo para o vermelho. Ele sente o gozo da aventura; ele sente a proximidade da morte; ele se interessa profundamente pelo que está por vir.

– Chegou a hora – sussurra a voz suave de alguém que está muitíssimo satisfeito com a novidade que traz.

– Não! – grita ele, que não quer interromper aquela louca e deliciosa corrida; e também grita no mais absoluto pânico, compreendendo que hora é essa que chega; e grita, ainda, porque de forma alguma quer abandonar essa descoberta recente, a capacidade de perceber, e de aprender e de maravilhar-se com o novo.

Mas, como ele acaba de descobrir, não é a ele que compete decidir sobre sua vida ou, como é o caso, sobre sua morte.

– o0O0o –

O vulto que se desloca com velocidade e agilidade vertiginosas vê o carro reluzente arremeter contra a barreira de automóveis que cruza a sua frente. Num movimento que, de tão veloz, olho humano algum poderia perceber, o vulto se atira do alto do edifício, em um mergulho quase instantâneo que o traz, através de uma vidraça estilhaçada, para dentro da Blazer, para junto daquele que tão bem o alimentou e satisfez. E é também quase instantaneamente, e com uma força surpreendente, que ele o envolve em seus braços, como se fosse um bebê, e o retira do que em breve será um inferno de ferros retorcidos e explosões, levando-o para longe, para o alto dos prédios, para perto do céu.

– o0O0o –

Paz. Ele é um de novo, e está olhando para o céu quase sem estrelas que cobre a cidade. Explosões e gritos, longe. Alguém, cuja silhueta escura se recorta acima dele, na luz fraca da lua minguante, segura-o com cuidado. Com ternura, diria. De alguma forma ele se salvou. Ele vê a morte se afastando, e seu corpo é tomado por uma sensação de abandono, de lassidão, não muito diferente daquela que se segue ao orgasmo.

Mas sem qualquer aviso a presença está de novo dentro dele, desta vez muito mais forte, dilacerando-o por dentro, e desta vez ele é um só e o pânico toma conta dele como um todo. Não há aventura. Não há o prazer da descoberta ao trilhar esse caminho negro que ele já conhece. Nada que alivie o desespero trazido por aquela presença da qual não consegue fugir por mais que se debata.

Mãos o erguem e mudam sua posição. A lua ilumina àquele que o mantém em seus braços e, se isto é possível, um terror ainda maior se apossa dele ao contemplar a pele descolorida e os dentes aguçados que um sorriso de puro deleite revela. Um pesadelo impossível.

– Satisfaça-me! – ordena a presença que o domina, agora totalmente.

Ele está derrotado, e se entrega.

– o0O0o –

No momento em que sente que a batalha com o espírito está definitivamente vencida, o vampiro crava os dentes no pescoço do jovem e com um rápido movimento lateral rasga-lhe a jugular. O sangue jorra dentro de sua boca, o prêmio máximo ao final de um confronto glorioso.

A onda de prazer que, quente e vigorosa, o invade por completo, é a razão de toda sua existência. Plenitude é o que traz. Enquanto absorve o líquido denso, o vampiro drena a vida de dentro de sua vítima, absorve seu calor e sua energia e os toma para si, fortalecendo-se. Seu vigor, seu apetite e sua violência aumentam à medida que o corpo jovem perde força. A conquista se torna mais e mais brutal.

Unido de corpo e alma a sua vítima, alimentando-se dela da maneira mais completa que se pode conceber, o vampiro atinge, ao mesmo tempo, o êxtase carnal e o êxtase espiritual. O espírito já vencido é completamente destroçado. A consciência se apaga. Em breve a batalha com o corpo físico também está vencida.

Satisfeito ao extremo, o vampiro atira para longe o corpo inconsciente da presa que consumiu por completo. A ponto de cruzar a delicada linha que separa a vida da morte, o jovem agora não é mais do que um monte de carne inútil, desagradável, que o vampiro saciado reluta em tocar.

Mas este é um mundo moderno, e uma criatura que vive acima das leis dos seres humanos tem de se cuidar hoje em dia. Computadores, bancos de dados, Internet, toda essa integração de informações pode complicar a vida de um vampiro. Já não dá mais para ficar espalhando por aí cadáveres misteriosos sem sangue; seria como assinar uma confissão e entregá-la pessoalmente a esses grupos de malucos que passam a noite reunidos on line tentando descobrir os segredos das criaturas das trevas.

Ele deve continuar incógnito.

O vampiro vence o asco que a carne quase sem vida lhe traz e ergue nos braços o que sobrou de sua vítima. Outro medo ancestral deve ainda ser superado, mas o preço é baixo diante do prazer que obteve nessa noite; invisível em sua rapidez, ele se precipita em direção à pira funerária em que ironicamente se transformou a Blazer, atira às chamas o quase-cadáver e se afasta delas como do fogo do inferno.

Sua vítima acaba de se transformar em mais um número nas estatísticas do trânsito criminoso da cidade de São Paulo, conduzido a seu destino não por uma criatura da noite, mas por uma aliança profana – álcool, insensatez, velocidade. Quantos não caíram frente a tais aliados? E quantos não o terão feito apenas em aparência?

E o vampiro está livre para curtir o resto da noite em algum lugar divertido, saboreando as lembranças agradáveis desta caçada e sonhando com a próxima.

 

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