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Maldição

Um conto manuelino

 

Martha Argel  

 

 

 

Fui vampirizado há muito. Meses. Horas. Dias. Milênios. Não sei ao certo, mas foi há muito, muito tempo. Há muito minha vida me deixou, e não sei mais o que é a luz do sol, ou o calor de uma tarde de verão, ou a paisagem se descortinando através das folhas suaves e verdes dos carvalhos e bétulas, faias e olmeiros que formam o limite preciso e justo entre a floresta sombria e o campo iluminado. Limites precisos e justos não mais existem, por mais que os procure, ao meu redor, nos outros, dentro de mim mesmo.

Como aconteceu? Não sei. Apenas aconteceu. Lembro-me de uma criatura brilhante como um deus, perversa como um íncubo, um súcubo, talvez um fauno lascivo ou uma sereia de voz encantada, que entrevi, e entreouvi, no meio da multidão em um dia de festa. Eu não havia sido convidado, mas num momento desavisado, dobrando por uma esquina, lá estavam, homens e mulheres, belos e fascinantes todos, reunidos e festivos, e me esgueirei, e me fiz partícipe, e me juntei ao grupo que cantava e dançava. Uma multidão coalhada de diamantes, de tecidos raros, de prendas exóticas que cativariam a qualquer um que soubesse reconhecer seu valor. Perdi-me entre esse estranho grupo que passou a fazer parte de minha vida, e de mim, como o ar que salva o afogado, a água bendita que ressuscita o náufrago do deserto. Vampiros todos, daquela casta que sobrevive, e viceja, e prospera sem ser notada pelos humanos comuns e correntes. Daquela casta que consegue seu alimento simplesmente com o tornar-se cara à vítima, obtendo da presa o que necessita enquanto esta crê ser ela própria a alimentar-se. Convenhamos, o vampiro mais eficaz, mais eficiente, mais insidioso. O que maior estrago causa. Nem sempre é a morte o destino mais cruel.

Naquele turbilhão de alegrias em que mergulhei e ao qual me entreguei com a ânsia do recém-convertido, em meio a todos destacou-se de imediato, por motivo especial nenhum e por todos os motivos do mundo, a criatura, minha criatura, a criatura que jamais terei. E de modo natural, com a naturalidade com que as grandes coisas ocorrem na natureza, meus olhos se fixaram nela, com curiosidade a princípio, com fascínio a seguir, e então, sem que me desse conta, com a mais absoluta necessidade, e foi então que soube que nada jamais voltaria a ser como antes.

Em retribuição a criatura pousou seu olhar sobre mim, e bastou que nossos olhos se cruzassem, para que se cruzassem também nossos pensamentos, e se fundissem. Penso que foi nesse primeiro instante que o fato consumou-se, ou foi nos meses e horas, dias e milênios que se seguiram. O primeiro olhar foi o princípio, e em si foi o fim, por carregar prenhe, em suas entranhas, a inevitabilidade do processo, relações de causa e efeito tão precisas, tão previsíveis como uma estória já contada.

Eu já estava vampirizado então, sem o saber, por todos os meses e horas, dias e milênios que se seguiriam. A história já estava escrita, e ao Tempo cabia apenas alcançá-la. Tempo composto de momentos gozosos, pois não há quem ponha em dúvida que a vampirização é o mais gozoso, o mais prazeroso dos fenômenos. O prazer constante, incessante, inescapável. Em qualquer momento, e por qualquer meio, a criatura vampira, o ser cativante, se fazia próxima, se fazia ouvir, sussurrava promessas e prometia delícias, e com não mais do que promessas sugava e se deixava sugar, seu óbvio prazer tão arrebatador, ante meus olhos tolos e cegos, quanto o próprio prazer que me prometiam seus gestos, palavras, carinhos e risos.

Desde o primeiro momento me perdi, sem sabê-lo. Seguindo os passos e gestos da criatura internei-me em um labirinto intrincado, construído por mim, construído por ela, construído por nós em uníssono. Corredores e paredes construídos com espelhos, repetindo-se um ao outro ad infinitum, espelhos diabólicos que só refletiam as delícias, não a dor, e que distorciam pecados, feridas e algemas, a superfície fria como a face de um cadáver devolvendo-os a mim como risos inocentes, adornos delicados e guirlandas de lírios.

Foi lá, bem nas profundezas desse labirinto tortuoso, que então me parecia não a armadilha que de fato era, mas o mais magnífico e belo dos palácios, foi lá que se consumou aquela estranha relação que, não importa se medida em meses ou horas, dias ou milênios, era-me tão eterna quanto a história de quaisquer amantes. Estranha, pois o gozo precedia a penetração completa. Estranha porque o gozo, aquele gozo previsto e antevisto já no momento primeiro que estava perdido no passado mas se mantinha sempre atual, esse gozo era perene, contínuo e interminável, um orgasmo prometido e sentido, desde então e até então, a cada minuto daqueles meses, horas, dias e milênios.

Revelação. Reconhecimento. O sim. Pela primeira vez, entregue, olhei nos olhos daquela criatura vampira, e por trás deles vi não sua alma mas a minha, e pela primeira vez reconheci o fato de que eu lhe pertencia. E então, pelo mais fugaz momento, senti sua alma dentro de mim, e senti, como nunca havia sentido, o que era ser e estar completo. Fomos um só, naquele momento único de fusão total. Sangue, vida e sentimento, memórias e desejos tão completamente entrelaçados, tão perfeitamente encaixados que até a dor era perfeita e bela e exata em sua medida e lugar.

E claro, o inevitável e previsível em qualquer trama tão barata como a nossa, mera e vulgar relação de predação, ou de parasitismo, ou simples tentativa de driblar o tédio de uma existência insatisfatoriamente vampira, e o belo momento da perfeição foi tão começo e fim quanto qualquer outro momento daquele processo de meses ou horas, dias ou milênios.

E o instante do reconhecimento total do um no outro foi o ponto exato em que deixei a vida para trás, e a escuridão se fez. Em que os espelhos se partiram, os reflexos se perderam, e a criatura vampira, saciada em sua ânsia de dominar, ou desiludida numa busca amaldiçoada e impossível, me lançou o adeus, terrível não apenas para mim mas também para ela, me mostrou o olhar infinitamente triste da dor banhada em lágrimas de sangue e desapareceu desfeita em névoa. Vítima ela tanto quanto eu, presos ambos nas malhas intrincadas de um destino já traçado. Crônica da pena anunciada.

Pois veja bem que não existem culpas a serem lançadas, ou acusações a serem feitas, uma vez que o desconhecimento da lei jamais pode ser usado como justificativa para protestar inocência. Todos conhecem a lei, todos sabem.

Ninguém ignora que é o destino da criatura vampira ansiar pela dominação, ainda que ela saiba, à exaustão e na própria carne, que a consumação da conquista e a rendição alheia que lhe traz a vitória são sua própria derrota, e são o fim, e o vazio do nada que se segue, sem transição, ao que se apresenta como o mais glorioso dos eventos.

É a maldição da vampiridade: que a vitória jamais traga a satisfação do desejo. Que a sede jamais se aplaque, que o fogo da ânsia jamais deixe de arder nas vísceras. Que a entidade vampira jamais tenha paz.

É minha maldição agora.

A criatura vampira que foi o motor de minha perdição?

Gostaria de poder dizer que nunca mais a vi, nunca mais a senti, nunca mais a desejei.

Mas o nunca mais não faz parte das regras desse jogo. O para sempre é a lei única.

Vejo-a, à criatura me transformou, todos os dias de minha vida, de minha não-vida.

Quando fecho os olhos e sua imagem fica-me gravada no fundo do olho. Imagem invertida, antes aparição benigna, agora espectro angustiante.

Quando procuro refúgio em cantos sombrios ou em lugares distantes, e sua voz me soa nos ouvidos, através das paredes, através da distância.

Quando de noite desperto sentindo o toque de sua mão, de seus lábios, de seus dentes na minha pele, onde eles não mais estão.

E eu a vejo nas festas brilhantes que continuo a freqüentar, arremedo do eu mesmo que um dia fui. Vejo-a na distância, e os únicos reflexos que encontro nos olhos que também me olham são dor, e vazio. A dor compartilhada de não mais nos reconhecermos um no outro. O vazio cúmplice da lembrança de um instante de perfeição, que durante meses e horas, dias ou milênios prometeu ser eterno, quando de fato eterna seria apenas a sua ausência.

Passamos um ao largo do outro, por compulsão envolvidos na caçada interminável, na procura, tão incessante como infrutífera, de novas vítimas, novos algozes.

Eternidade.

Um para sempre de desejos insaciados.

A maldição do ser vampiro, o predador eterno.

Para sempre, agora, a minha maldição.

 

 

São Paulo, 8 de outubro de 2001,

três dias após a volta ao lar.

Lar...

 

 

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