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Revelação

 

 Martha Argel  

 

 

- Só uma coisa peço ao Senhor...

Não é muita gente que vai à igreja nas tardes de quarta-feira, e não era a primeira vez que ela se via sozinha na nave silenciosa daquela igreja de bairro, uma das poucas que, com as portas abertas, ainda acolhia os fiéis fora dos horários de missa. Igreja velha e envelhecida, duma mistura desajeitada de barroco e gótico, escura e resguardada da luz do sol por vitrais que não tinham muita arte mas que revestiam os bancos e o piso com poças de luz colorida. Às vezes parecia que ali dentro o século vinte ainda não tinha chegado.

Era nesses momentos de isolamento que ela sentia uma Presença perto dela. Ela dizia a si mesma que essa Presença devia reconfortá-la. Que o fato de senti-la, ali, na casa Dele, era a prova inequívoca de que Ele, Aquele em quem ela acreditava, estava a seu lado para ampará-la.

- ... morar na casa de Deus...

Embora procurasse paz e segurança em sua percepção da Presença, ela olhava inquieta para o buraco que alguns meses atrás havia sido aberto no piso, junto à parede da esquerda. Até os edifícios santos sentem a passagem do tempo. Algum problema de infiltração havia sido resolvido, mas aquele buraco, em que uma criança pequena poderia entrar com facilidade, ficara como testemunho de que problemas resolvidos pela metade deixam de ser problemas e tendem a ser ignorados.       

O buraco a impressionava. Sabe Deus as coisas que podem se esconder num buraco como aquele. Afinal, as profundas são o reino do inimigo...

No entanto, sua convicção pessoal a tranqüilizava. Na morada do Senhor nada de mau lhe poderia acontecer.

- ... todos os dias da minha vida...

A Presença. Era sem dúvida a Presença do Senhor que ela sentia tão claramente, e devia ser suficiente para lhe dar conforto, mas... Ela não estava sendo sincera consigo, e por mais que tentasse não conseguia enganar a si própria. A presença, que devia ser a presença do Senhor, não lhe dava forças. Pelo contrário, assustava-a, e ela se assustava ainda mais com essas dúvidas que iam contra a sua fé. A fé sempre tinha sido suficiente para fazê-la crer, mas aquela Presença...

De algum modo lhe parecia a presença do mal, mas o mal jamais penetraria no templo do Salvador. A Presença só poderia ser a expressão Dele. Mas... por que isso parecia estar errado, por que não era como deveria ser, e não ela sentia o que deveria sentir? Por que sua fé lhe falhava agora, quando precisava tanto dela?

- ... para fruir as delícias do Senhor...

Irresistível, o buraco atraía seus olhos, uma e outra vez, e por mais que ela os desviasse, não conseguia deixar de olhar para ele, para sua escuridão profunda.

- ... e contemplar o Seu templo.

Ela não conseguia se concentrar no Salmo que em outros tempos costumava tranqüilizar-lhe a alma. Ela, sempre tão sincera nas preces, nas oferendas, nos sacrifícios ao Senhor, estava repetindo, sem refletir, palavras que deviam sair do fundo de seu coração. O buraco parecia hipnotizá-la.

Ela afastou os olhos do buraco, mais uma vez, e os pousou com firmeza no filho de Deus, que crucificado expiava os pecados da humanidade.

- Ele me esconderá no seu tabernáculo.

Sem que ela sentisse, outra vez seus olhos deslizaram para fixar-se na boca negra e assustadora que se abria no chão.

Ela abafou um gemido de espanto.

Quase não chegou a ser uma surpresa constatar que agora, dentro da escuridão, havia dois olhos vermelhos e brilhantes que devolviam seu olhar. Parecia que ela tinha estado esperando que algo como aquilo acontecesse, mais cedo ou mais tarde. Como se ela quisesse que existisse algo ali espreitando-a. Talvez a inquietação que aqueles olhos traziam não fosse maior que a inquietação que sua ausência havia causado.

- Nos dias de adversidade, ele me ocultará...

Era a confirmação da Presença, aquela presença que devia confortá-la. E que, ao contrário, a inquietava.

Mas o mal nunca poderia penetrar na casa do Senhor. Aquilo que se escondia ali, que a vigiava, não podia ser o mal. Mas... o que a estaria espreitando, de dentro de um buraco, um buraco aberto no piso, junto à parede da casa do Senhor? O Senhor não permitiria nunca o mal em sua presença. Então o que era aquilo?

-  ... no esconderijo de sua tenda, e me erguerá num rochedo.

Os olhos que a olhavam de dentro do buraco atraíam sua atenção, atraíam seus pensamentos, atraíam seus olhos e terminaram por atraí-la.

Quantas vezes não acontece? ''A curiosidade matou o gato'', dúzias de vezes ela havia advertido seus netos com essa frase mórbida, tão estranha quanto a própria curiosidade dos gatos. Mas em seu íntimo, ela pensava ''faça o que eu digo e não o que eu faço'', e não conseguiu resistir a sua própria curiosidade, ao par de olhos vermelhos e ao mistério que os rodeava.

- A minha cabeça então se erguerá...

Ainda que temerosa, ela foi chegando perto do buraco, o buraco que não podia ser o covil do mal, porque Ele não permitiria que o mal se abrigasse num buraco no piso de Sua morada. E se o mal não se escondia ali, porque não podia se esconder ali, não havia porque temer o que ali estava. O que era aquilo? Algo que habitasse um buraco no piso da morada do Senhor devia ser um instrumento do Senhor. Não o mal. Mas o quê?

- ... acima dos inimigos que me rodeiam.

Os pensamentos inquietos e perturbados repetiam-se e rodavam em sua cabeça, buscando uma saída, procurando a compreensão, tentando achar a explicação que acalmaria seu espírito. O turbilhão da mente contrastava com a imobilidade do corpo. De pé ao lado do buraco, suas mãos postas pareciam buscar consolo uma na outra, e ela olhava o buraco e os olhos vermelhos, irremediavelmente atraída por eles.

- No seu tabernáculo oferecerei sacrifícios de júbilo.

Dentro dela, temor e curiosidade ainda se confrontavam.

Os olhos desapareceram. Ela piscou, confusa, e por um momento ficou ali sem saber o que fazer. Fosse aquilo o que fosse, teria ido embora? Nem bem a pergunta lhe passou pela mente, a resposta veio na forma de uma névoa suave que começou a subir do buraco.

Ela deu um passo apressado para trás enquanto a névoa se adensava e começava a assumir uma forma meio humana. Parecia uma figura envolta em um manto, cujas feições mal podiam ser percebidas a não ser... a não ser por um par de olhos, vermelhos como brasas.

Aquele... milagre, não havia outra palavra, que acontecia a sua frente, seria obra do Senhor? Por que então ela estava tão assustada? Por que a certeza de que aquilo era mau, era o mal?

Não, não era possível que o mal estivesse aqui na casa do Senhor...

- Entoarei cantos e salmos ao Senhor!

O vulto ergueu em sua direção uma mão que não era uma mão, mas a garra de um predador. Abaixando a garra num movimento diagonal, rápido e súbito, o ser dilacerou-lhe o ventre. Surpresa, ela viu o sangue jorrar e derramar-se pelo piso da morada do Senhor, misturado com suas entranhas, antes que a dor a invadisse. Uma fraqueza repentina fez com que caísse de joelhos no meio da poça cor de rubi que se formava e crescia. Ela olhou atordoada para o ente que saíra do buraco.

Você quer seu Senhor? Vá a Seu encontro, então! Ela escutou, nítido, em sua mente.

Os sentidos começavam a lhe faltar. Ela já não via com clareza o sangue que continuava a perder, e até mesmo a dor começava a parecer irreal. As únicas coisas que percebia com certeza era que aquele vulto indistinto a olhava, com satisfação, e que ele sorria. E que ela estava morrendo.

Ela fechou os olhos. Chamando para si toda uma vida de piedade e devoção, e reunindo os últimos fiapos de força que lhe restavam, proclamou pela última vez a sua fé:

- Ainda que eu caminhe pelo vale das sombras, não temerei mal algum, porque estais comigo.

Uma risada cruel soou em sua mente, e veio a revelação, e com ela a semente da dúvida.

Eu sou o Mal, e aqui estou, na casa Dele, e Ele não me deteve. E por que Ele não me deteve? Por que Ele não quis? Por que Ele não pôde? Ou por que Ele… sou Eu?

No seu último momento, foi a dúvida que lhe ocupou a consciência, a dúvida mais terrível de todas, a dúvida final que tornou inútil toda uma vida de piedade e devoção. Ela morreu sem o conforto da fé.

 

São Paulo, 18 de fevereiro de 1999

   

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