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O cavaleiro e o dragão

ou

Enésima versão de um tema nem um pouco original

 

 Martha Argel  

 

 

 

O cavalo negro luzidio resfolegou ao chegar à borda da floresta. Dali, à luz da lua cheia que iluminava tudo como se fosse um pequeno sol mortiço, via-se o objetivo da jornada que havia durado todo o dia anterior.

- Ôa, Branco! - o cavaleiro, cuja armadura prateada rebrilhava ao luar, controlou as rédeas sem dificuldade, enquanto fixava os olhos na enorme e negra caverna que se abria no flanco da montanha a sua frente.

- Meu Senhor Deus Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra! - exclamou o cavaleiro, empalidecendo. Pelas dimensões da tremenda cavidade ele bem podia imaginar o tamanho do dragão que dela fazia sua morada.

O cavalo levou um baita susto, e fez menção de empinar, quando o cavaleiro gritou, sem aviso:

- SAI E LUTA, SILVERWORM! VEM ENCONTRAR TEU DESTINO, VERME MISERÁVEL!

Por alguns momentos constrangedores nada aconteceu. O cavaleiro se acomodou, inquieto, na sela, imaginando se ia ter de repetir o desafio. Isso seria ridículo.

Ele já ia abrindo a boca outra vez quando percebeu uma vibração surda, rítmica, como o mar quebrando ao longe. Uma vibração que chegava até ele pelo solo, pelo ar, pelos ossos de seu crânio, e que foi aumentando em intensidade e em volume, até que o mundo todo parecia tremer, como se mãos gigantescas golpeassem o couro de um imenso tambor.

O cavaleiro não sabia se deveria sorrir ou gemer. O dragão aceitara seu convite, afinal.

De repente, uma labareda rubra e escorchante projetou-se de dentro da caverna em direção à floresta, e ele sentiu seu calor através da armadura.

- Quem ousa perturbar-me de forma tão insolente? - rugiu uma voz saída da escuridão, tão cavernosa quanto a própria caverna.

- Ee... - começou o cavaleiro, interrompendo-se ao notar que a voz saíra trêmula e em falsete. Ele pigarreou e tentou de novo, desta vez com mais êxito - EU, VALENTE, NOBRE CAVALEIRO PRATEADO QUE VAGA PELO MUNDO, FAZENDO O BEM SEM OLHAR A QUEM!

Branco, o cavalo negro, suspirou entediado. Ele já tinha ouvido aquela lengalenga centenas de vezes. Sempre a mesma ladainha.

- E que queres comigo, nobre cavaleiro altruísta? Não necessito de ninguém que me faça o bem.

Valente piscou os olhos, confuso. O dragão não tinha entendido nada.

- Verme desprezível, não tentes confundir-me com teu raciocínio tortuoso! Fui mandado pela feiticeira Treliça para resgatar a pobre donzela Piaçava, que manténs prisioneira em teu infecto covil!

A terra tremeu uma vez mais quando um longo focinho quadrado emergiu da entrada da caverna. Detrás do focinho vieram dois olhos grandes como pratos e negros como ônix. Depois tentáculos delgados e desinquietos que açoitavam o ar. Um longo pescoço serpentiforme. Duas asas membranosas que, uma vez fora da caverna, pareciam nunca mais terminar de se estender em direção ao céu. Um corpo gigantesco, de músculos poderosos movendo-se por debaixo de escamas imbricadas, da mais pura prata. Um par de pernas musculosas e fortes, que ergueram aquele magnífico colosso a uma altura assombrosa. Por fim, uma cauda ondulante e elegante, que se afinava em direção à ponta. Um animal soberbo. Interminável. Assustador. Um monstro de prata.

Valente engoliu em seco. Cristo Redentor que a Todos nos Salva, onde é que fui amarrar meu jegue? perguntou-se ele.

- Não ouses desafiar-me, cavaleiro afoito. Tu não sabes no que te estás metendo - alertou o monstro, com voz soturna.

- Sei sim, verme desprezível - retrucou Valente, que, a despeito do medo que lhe transformava o tutano dos ossos em mingau de aveia, desembainhou Deafsinger, sua espada - Escória, é o que tu és. E minha missão, profetizada pela feiticeira Treliça, é livrar o mundo de tua existência maléfica.

E ele ergueu no ar Deafsinger, que ante a iminência da batalha, largou a cantar uma ode heróica de rimas sofríveis, numa voz esganiçada.

O dragão suspirou.

- Ouves demasiadas baladas épicas, cavaleiro de bela armadura. Tua visão é distorcida e idealizada. Não te metas nisto, volto a te advertir. Não é assunto de teu interesse. Não dês início a um jogo cujo desfecho, qualquer que seja, somente te trará a desgraça.

E num insulto explícito, o dragão começou a dar as costas, com a intenção de voltar ao interior de seu covil.

- MONSTRO DESPREZÍVEL, VOLTA E LUTA COMO UM VERME! - berrou o cavaleiro Valente, furioso, brandindo sua espada no ar. Cada vez mais ansiosa pela contenda, Deafsinger, a espada guerreira, engatou numa cantilena vigorosa cheia de agudos desafinados.

O dragão olhou-o por cima do ombro com olhos cheios de irritação.

- Mas tu és teimoso, hein, nobre cavaleiro altruísta?

- A mim foi confiada a missão de salvar a donzela, e assim o farei, nem que tenha de pagar esse feito com minha própria vida! - declarou Valente, esporeando sem piedade sua montaria, espada em riste, num ataque inesperado.

Pego de surpresa, o cavalo xingou-o mentalmente de estúpido, suicida e outras coisas mais pesadas, mas fiel e treinado como só ele, saltou adiante de imediato, e disparou ao encontro do formidável inimigo.

Vítima da inércia produzida por semelhante corpanzil, o dragão não reagiu à surpresa com a rapidez necessária, e quando deu por si havia sido atingido em cheio, e um ferimento profundo já corria ao longo de todo seu flanco, e o sangue escarlate corria abundante, encobrindo o brilho das escamas reluzentes.

O bramido que Silverworm soltou fez estremecer o céu, e foi um milagre que nenhuma estrela despencasse das alturas e se estatelasse na terra. A longa cauda chicoteou, rasgando o negro ar noturno numa rapidez impossível, indo em direção ao cavaleiro, que apesar da rápida fuga de Branco ainda não tivera como colocar-se fora do alcance da terrível criatura.

Mas Branco, brioso cavalo calejado pelas incontáveis batalhas nas quais a estupidez de seu senhor já os metera, tinha previsto a manobra do dragão, e saiu num impossível e incrível, ridículo e patético trote lateral, mais parecido com um bailado desconjuntado, que no entanto foi eficiente em tirar da reta o seu e o do cavaleiro.

Ou quase.

Apesar dos esforços da montaria, a ponta do rabo do dragão ainda conseguiu atingir o alvo, e golpeando o braço do cavaleiro, projetou Deafsinger numa longa parábola que foi terminar no topo de um pontiagudo junípero de quase quinze metros de altura. A espada ficou lá, presa aos ramos mais altos, lançando gritinhos até que um pouco musicais, mas mesmo assim dissonantes e irritantes.

O cavalo mudou incontinenti para o modo galope em frente, à toda, carregando para a proteção das árvores da floresta seu cavaleiro, que segurava o braço direito e gemia baixinho.

- CAVALEIRO VALENTE, CONSIDERA-TE MORTO!!! - urrou Silverworm, acrescentando em seguida - A mulher que mantenho prisioneira jamais ganhará a liberdade!

O dragão então fechou os olhos, baixou a cabeça e começou a entoar uma melodia de sons lúgubres. E a ferida em seu flanco de repente começou a se fechar, e a cicatrizar, e Valente sabia que, em minutos, de toda sua audácia nenhum vestígio restaria.

Lembra-te, Valente, de que Silverworm apenas pode ser ferido pelo interior, as palavras de Treliça finalmente ecoaram em sua memória, de onde jamais deveriam ter saído, e um arrepio gelado percorreu sua coluna, como se fosse o afago de uma gélida mão sem vida.

Branco, muito mais perceptivo que seu agora acabrunhado senhor, foi quem primeiro percebeu: enquanto a ferida se fechava, o dragão juntava forças para o próximo round. A garganta dele se avolumava, num óbvio preparativo para vomitar uma espetacular labareda. Os olhos do cavalo se arregalaram. Tendo em vista o tamanho do dragão, as chamas produzidas seriam suficientes para torrar não só os dois, homem e montaria, mas também toda a floresta. Não havia salvação, nem para ele, nem para o bundão do seu dono.

Valente, que era meio lerdo mas não de todo, também percebeu isso.

Fé, Valente, tem fé, ele se lembrou das palavras proferidas por seu pai no dia em que ele, Valente, partiu para a vida errante de cavaleiro peregrino.

Ele rodeou com os dedos a cruz de alabastro que levava ao pescoço. Fechou os olhos e se concentrou, procurando ignorar tanto a música funérea entoada pelo dragão quanto os arroubos desarmônicos com que Deafsinger preenchia os espaços vazios da paisagem sonora.

- Anjos da guarda, anjos meus que me foram legados por minha doce mãe em seu leito de morte. Ajudai-me em minha missão de livrar o mundo deste mal. Vinde a mim, ó anjos!

Em resposta à evocação tão sincera, uma nuvem etérea surgiu sobre uma moita de azevinho, adensou-se e alongou-se em coluna, tomou uma forma vagamente humana e de repente definiu-se num altivo anjo de asas emplumadas. Cabelos escuros e bastos, um bigodaço fornido e um lápis atrás da orelha.

O cavalo abafou uma risadinha enquanto o cavaleiro olhava o anjo, entre surpreso e irritado.

- Que raio de anjo és tu? Não és Ariel, Isael, Rafael, Gabriel ou Misael...

- Não, sou Manuel - respondeu o anjo, com uma voz suave e um sotaque forte - Sou o anjo de plantão, filho. Os outros estão todos ocupados protegendo os cruzados contra Saladino, em Jerusalém. A coisa tá braba por aquelas bandas, filho. Mas diz lá, que vai ser dessa vez?

Antes que Valente pudesse responder, seus olhos se desviaram nervosos para o dragão que preparava seu arroto fatal. O anjo Manuel compreendeu.

- Calminha aí, filho. Vou quebrar teu galho!

Num gesto lento e suave, Lento e suave demais, pensou o cavalo, o anjo Manuel ergueu as mãos acima da cabeça. A garganta do dragão começou a gorgolejar. O anjo abaixou as mãos de forma tranqüila. Vai logo!, suplicou o cavalo em pensamento. O gorgolejo ficou mais forte, mais profundo. O anjo, com muita paz e serenidade, juntou as mãos a sua frente. Depressa, cara, depressa, gemeu mentalmente o cavalo. Um silvo agudo saiu pelas narinas do dragão. O anjo fechou os olhos e abaixou a cabeça com graça. Anjo lerdo, vamos virar churrasco, e o cavalo começou a entrar em pânico.

Justo quando o dragão abriu a boca e cuspiu uma longa chama, o anjo ergueu a cabeça e as mãos com rapidez, os olhos faiscando, e um manto suave de luz diáfana, azul-gelo, envolveu aos três, cavaleiro, anjo e cavalo.O frio cortante e súbito gelou de imediato a ponta do nariz de Branco e as orelhas de Valente, e desviou a torrente de fogo em duas línguas incandescentes que deslizaram, inofensivas, pelos flancos da celestial barreira.

- Oh, m-m-maravi-ilha d-das m-m-maravi-i-ilhas! - exclamou Valente, tiritando, os dentes batendo de frio.

- A Miraculosa Pelerine dos Justos, que protege o corpo e a alma dos puros e dos ingênuos contra a maldade do mundo. Pra dizer a verdade, tu devias usar isso o tempo todo, Valente... - comentou o anjo Manuel.

A labareda não se extinguia, o fôlego de Silverworm parecia inesgotável, e a Miraculosa Pelerine dos Justos continuava firme e forte protegendo cavaleiro e cavalo, e enregelando-lhes pés e patas.

Até que, num soluço gigantesco, o facho de fogo morreu, afogado num repentino ataque de tosse provocado pela garganta ressecada, irritada por tamanha exibição de poder de fogo por parte do gigantesco réptil.

A Miraculosa Pelerine dos Justos se desfez e sumiu, para felicidade de Branco, que golpeava o solo com as patas, tentando restabelecer a circulação.

- Rápido, anjo Manuel. O inimigo está enfraquecido. Consegue-me um espadão, e cortar-lhe-ei a garganta ao dragão - versejou Valente, sem querer.

O anjo Manuel desta vez foi ligeiro. Ergueu as mãos ao céu e já no instante seguinte um tremendo empadão materializou-se nas mãos de Valente.

O cavalo arquejou de espanto e pensou Ah, essa não! Anjo surdo???, antes de começar a encomendar a alma ao deus eqüino de sua devoção.

Também Valente se alarmou.

- Anjo Manuel, tu és surdo ou crês que é hora pra piada??? Dá-me um espadão e não um empadão... - ele aproximou o nariz e deu uma cheiradinha - ... de bacalhau? Ugh, detesto bacalhau!

O dragão já havia se recuperado do ataque de tosse. Vendo o garboso cavaleiro, em sua armadura prateada perfeitamente azeitada, montado com galhardia em seu cavalo perfeito, com um monumental empadão de bacalhau nas mãos, Silverworm arregalou os olhos e teve um novo ataque. De riso.

- Vai por mim, filhinho - tranqüilizou o anjo Manuel - Tu não o podes ferir de fora para dentro, apenas de dentro para fora, ou já te esqueceste disso? Aproveita, vai lá e atira o empadão naquele bocão aberto, já!

Como um único corpo e uma única mente, Branco e Valente entraram em ação. O cavalo irrompeu num galope vigoroso rumo ao dragão, que se sacudia de tanto rir, enquanto o cavaleiro fazia complicados cálculos mentais tentando prever a iminente trajetória do empadão. Seria uma manobra arriscada, e a vitória dependia de um sincronismo total. Branco teria de aproximar-se o mais que pudesse, mudando abruptamente de rumo no último momento possível, para não se chocar com o reluzente flanco do dragão. Valente teria frações de segundo para atirar o projétil gastronômico de forma que, em sua trajetória descendente, ele acertasse o alvo.

Mas homem e cavalo já haviam enfrentado juntos muitas e muitas batalhas, e se conheciam a fundo, tão bem quanto um homem e um cavalo podem se conhecer (er… quer dizer, não no sentido bíblico, que fique bem claro, pois apesar dos boatos, Valente não é disso!).

O trabalho em equipe, e a investida, foram perfeitos.

Conduzido pelo galope seguro de Branco, e com uma precisão que o teria transformado em um ídolo do basquete, não fosse pelo fato de que o basquete somente seria inventado daí a exatos setecentos anos, o nobre cavaleiro arremessou o empadão que subiu e subiu no ar, executando duas piruetas graciosas, antes de precipitar-se para baixo, direto e reto através da bocarra escancarada pelo riso. No instante seguinte ao arremesso, Branco descreveu sua curva fechada e começou a se afastar do dragão, como um raio negro percorrendo a noite.

Atrás de si, a dupla heróica ouviu o dragão se engasgando, e se apressou ainda mais.

- Corre, meu filho! - gritou o anjo Manuel - Corre que vai ser um estouro!

Os pulmões de Branco ardiam e pareciam querer explodir. Quase deitado sobre seu pescoço, Valente, incentivava-o e apressava-o, fincando-lhe as esporas nos flancos com vontade. Eu me vingo! Eu me vingo! repetia-se o cavalo, alucinado, prometendo-se derrubar Valente em cima do primeiro monte de estrume fresco que encontrasse. Se fosse estrume humano, melhor ainda.

Um ronco surdo envolveu-os, e Valente arriscou uma olhada por cima do ombro.

O dragão, que já não ria, tinha os olhos arregalados de terror, a boca escancarada mas muda, e apertava contra o abdome as duas asas membranosas.

Num momento os dois tinham atingido o alto de uma colina, a uma distância que lhe pareceu segura a Valente, e ele puxou as rédeas de Branco, fazendo-o estacar. O anjo Manuel se materializou ao lado deles.

- Contempla, maravilha-te e regozija-te! - proclamou o anjo, e num gesto teatral estendeu a mão, apontando o dragão que dali se via, iluminado pelo luar, como se fosse um ator num palco.

Como que obedecendo a um comando, o dragão apertou ainda mais as asas contra o corpo e se contorceu, soltando um ganido vindo do fundo da alma. Um lamento de gelar o sangue.

- Que ocorre? Que prodígio é este? - assombrou-se Valente.

- Aquele empadão não era um empadão comum. Ele foi feito pelo pior cozinheiro do mundo, que estava fadado a arder eternamente nos fogos do inferno, para expiar o sofrimento que causou a um número incalculável de pessoas. Mas ele se redimiu, e foi perdoado, e subiu aos céus após alcançar a absolvição divina por ter criado essa arma tão formidável contra as forças do mal.

O ganido transformou-se num grito de dor e de horror.

- EU TE AVISEI, VALENTE, ARREPENDER-TE-ÁS POR TER FEITO ISTO! - esturrou o dragão numa voz de gelar o sangue da aorta.

Famosas últimas palavras. O corpo do dragão de repente começou a se intumescer em lugares estranhos, e então inchou como um balão, cresceu desmesuradamente até que, chegando ao limite de pele, músculos e tendões, por fim explodiu, lançando em todas as direções uma chuva sangrenta de miúdos e escalopinhos.

- Iurrú! - comemorou Valente, dando um soco no ar e removendo o elmo, recoberto por um grande pedaço esponjoso e gosmento do que parecia ter sido parte de um pulmão.

- Às vezes o empadão é mais forte que o espadão - filosofou o anjo Manuel antes de desfazer-se numa delicada nuvem que se esgarçou sem deixar traços.

- À donzela, meu nobre cavalo! - conclamou Valente, e com gosto esporeou Branco, que mais uma vez desejou ardentemente derrubá-lo pelado numa bela touceira de urtiga, mas que no entanto obedeceu, célere e fiel.

Galoparam até a entrada da caverna, onde Valente desmontou e largou o cavalo, que ficou muito feliz por não ter de penetrar na cavidade. O cavaleiro agarrou um archote que ardia num suporte preso à parede, como muito convenientemente sói acontecer em todo conto de fadas.

Com a tocha a iluminar-lhe o caminho, Valente adentrou a caverna, lúgubre, úmida, silenciosa, ameaçadora, e percorreu sua sinuosa extensão. De repente parou. Lá no fundo havia algo. Um vulto branco.

Ele se aproximou cauteloso.

Uma jovem, bela e loura, pele alva como a neve recém-caída. Amarrada por grossas cordas a um poste.

O coração de Valente palpitou, subitamente apaixonado.

- Piaçava, doce dama, tuas provações terminaram. Eis-me aqui, para salvar-te agora e servir-te para todo o sempre! - disse ele enquanto desatava os nós apertados das cordas que a prendiam. Apertados, e úmidos. Louvado Senhor Nosso Deus, Pai e Protetor de toda a Humanidade, a pobre donzela deve ter transpirado de terror por horas, judiação, compadeceu-se o herói

Quando o nobre cavaleiro por fim a libertou das amarras, a jovem deixou-se cair em seus braços, abraçando-o e aninhando-se o melhor que pôde contra seu peito encouraçado. Ela era pequenina, e isso o fez sentir-se bem. Em geral, ele não chegava senão aos ombros da maioria das damas, o que não contribuía em nada para que ele se sentisse garboso e imponente.

- Oh, gentil cavaleiro que me salvou a vida, ser-te-ei grata durante todo o tempo que durar tua breve vida.

Meio na dúvida, ele respondeu ao abraço dela, estranhando um pouco aquelas palavras. Mas sem poder se conter enterrou a face nos cabelos suaves, que cheiravam a… a… terra?

Subitamente alarmado, ele tentou se livrar do abraço da pálida dama, e não conseguiu.

Ela jogou a cabeça para trás e soltou uma risada espontânea e contagiante.

- Hahahahahahaha! És um tremendo de um ingênuo, meu nobre cavaleiro verticalmente prejudicado!

Num gesto fácil e violento, ela o empurrou contra a parede e a força do impacto deixou-o sem ar, e ele caiu ao solo, e lá ficou, esticado, sem conseguir se levantar por causa do peso da armadura prateada.

A bela jovem se aproximou, e pousou um pezinho delicado sobre o peito dele, comprimindo-o contra o chão e impedindo-o de mover-se. Havia chegado aquela hora em que, num conto ou num filme, o vilão faz terríveis revelações ao herói aprisionado.

- Tolo é o que és, cavaleiro. O dragão bem que tentou te avisar. Ele me mantinha prisioneira, sim, mas para impedir-me de agir segundo minha natureza. As cordas que desataste apenas me prendiam por estarem embebidas em água benta. Ao nascer do sol aquele terrível monstro me levaria para fora da caverna e eu, exposta à luz do dia, explodiria em chamas que consumiriam meu corpo imortal e me mandariam de vez para o inferno, ao qual em minha não-vida já pertenço. Devo-te a liberdade e a vida, ingênuo cavaleiro. Mas não só a ti como também a Treliça, minha querida amiga, que tão bem te manipulou e te mandou para me salvar. Não te esquecerei, cavaleiro... pelos próximos cinco minutos!

Com facilidade, ela o ergueu e jogou em cima de uma rocha, onde ele se debateu sem conseguir se erguer. Maldita armadura.

Ela agarrou um dos braços, removeu a manopla, que atirou longe, e com uma delicadeza incrível arrancou-lhe a mão fora. O sangue jorrou, quente, denso e abundante, enchendo o ar com seu cheiro metálico e doce.

Valente berrou, de dor, de desespero, de terror. Piaçava riu-se.

- É assim que se toma o sangue de um cavaleiro encouraçado. Adeus, tolo herói!

E então ela grudou a boca ao local onde antes estivera a mão do nobre cavaleiro. E bebeu, e se refestelou, e pôs fim ao jejum imposto pelas cordas e pelo dragão.

Valente continuou berrando, e o berro durou até que ele desfaleceu. E morreu.

A bela dama, loura e alva, ainda mais bela depois da refeição, limpou a boca com uma pontinha da anágua, ajeitou as saias para que a mancha não aparecesse e saiu da caverna num passo leve e juvenil.

Branco, o cavalo agora sem dono, olhou-a desconfiado. Cadê aquele trouxa de seu cavaleiro?

Piaçava alisou o focinho da negra montaria. Ei, isso é bom, pensou o cavalo, já começando a se esquecer de seu antigo amo.

- Que belo garanhão! Não sei como te chamavas antes, mas vou te chamar de Azeviche, e prometo que jamais, jamais, vou te ferir com chicotes ou esporas.

Num salto ágil ela montou no cavalo. Feliz com a nova dona, muito mais leve e gentil que o anterior, Azeviche lançou-se num galope elegante, carregando-a satisfeito noite adentro, ao encontro de Treliça.

No lugar da batalha só restaram muito sangue, miúdos de dragão e o corpo de um cavaleiro, que apodreceria bem antes de ser encontrado.

Ah, e uma espada desafinada que enchia a noite e atormentava as árvores com uma ária que só seria escrita e massacrada pela crítica daí a vários séculos. 

 

FINIS...

ou talvez não, com o Valente nunca se sabe!

 

Este conto é para o Adriano Siqueira, o criador do Valente

 

 

  

Cidade de São Paulo,

aos 21 dias do mês de março do ano da graça de 2001,

ano internacional de matar o Valente

 

 

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