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Almas… penadas

 

Martha Argel

 

 

 

Quem me conhece sabe que costumo dizer para todo mundo que tenho uma vida dupla. Por profissão sou ornitóloga, o que quer dizer especialista no estudo das aves. Trabalho na área de meio ambiente, principalmente na elaboração de documentos sobre impacto ambiental. Sou aquela pessoa encarregada de descobrir se a hidrelétrica, porto, aeroporto ou pátio de estacionamento vai ou não transformar o passarinho ameaçado de extinção em um sem-terra, um sem-hábitat. Ou numa triste lembrança.

 

No entanto, uma nova atividade veio, desde alguns anos atrás, tomando corpo aos pouquinhos na minha vida: a carreira de escritora. Este texto que você lê é uma crônica, mas o que mais escrevo são contos. Contos fantásticos. Quer dizer, minha praia é a literatura fantástica. Incluindo o terror. Tem gente que acha insólito.

 

Mas não acho que escrever contos de terror (e de vampiros, uma paixão) seja o aspecto mais insólito da vida que levo. Estranho mesmo é ganhar a vida olhando passarinho. Perdão, estudando aves.

 

Por vezes essas duas metades tão diferentes se misturam de maneira tal que até me confunde. Como aconteceu no causo que vou contar..

 

Lá estava eu terminando algum documento burocrático, quando tocou o telefone.

 

Atendi. Hum, excelente. Telefonema de trabalho. Um laudo sobre fauna. Esse documento vem a ser o seguinte: se alguém planeja usar um dado terreno, e para tanto precisa cortar um pedaço de mata, o órgão ambiental competente pede um laudo redigido por um especialista, descrevendo em detalhes a área e sua fauna, atestando que o desmatamento não vai trazer grande prejuízo aos bichos do local e apresentando alternativas para compensar o corte da vegetação. No caso, tal especialista sou eu.

 

A pessoa do outro lado da linha começou a explicar do que se tratava. A área não era extensa, e já estava desmatada. Ótimo, beleza, parecia simples, era na Grande São Paulo, pertinho de casa, dava pra ir cedinho, pegar os bichos ao amanhecer, que é o melhor horário, e na hora do almoço já estar de volta.

 

– E o empreendimento o que é? – perguntei, certa de que seria o de sempre, um loteamento.

 

Não era.

 

– Um cemitério.

 

O quê???

 

– Um cemitério?

 

– É, um cemitério.

 

Quase perguntei se, além de aves, o escopo do estudo incluía almas penadas, mas consegui manter a pose de profissional calejada.

 

– Antes de aceitar o trabalho preciso de mais informações, fotos, material cartográfico, essas coisas…

 

– Ah, não tem problema, amanhã mando um motoboy aí entregar toda a papelada.

 

Ótimo, beleza, encerrado o telefonema, me esqueci do assunto e voltei para o documento burocrático que precisava fechar.

 

E então, no dia seguinte…

 

Eu estava tão concentrada na proposta que tinha de entregar antes do almoço que a campainha tocou e não notei.

 

Foi minha mãe atender.

 

E quase morreu do coração.

 

Tinha um rabecão parado na frente de casa. É, isso mesmo, um carro de carregar defunto. Moderno, lustroso, vidros fumês. Um tom azul-escuro muito bonito e discreto. O nome do cemitério formando um arco elegante na porta do motorista.

 

– Entrega pra doutora Martha.

 

Minha mãe provavelmente teve certeza de que finalmente a filha dela tinha dobrado o Cabo da Boa Esperança. Deve ter suspirado e imaginado qualquer coisa. Tipo um caixão de defunto, vago ou ocupado. Afinal, sua filhinha ultimamente tinha dado de andar com umas roupas esquisitas, até as unhas pintadas de preto, tinha arranjado uns amigos igualmente estranhos, e só falava de vampiro, lobisomem, essas coisas.

 

E, claro, numa situação dessas vizinho tem um faro que só vendo. A vizinha da direita veio ver, assustada, o que estava acontecendo. Os pedreiros que estão trabalhando na casa da esquerda pararam todos e ficaram abobados, de olho arregalado e queixo caído. Não duvido que algum tenha feito o sinal da cruz.

 

Mas o motorista do carro funerário, um senhor muito simpático que já está acostumado a aterrorizar as pessoas, só tinha vindo, afinal, trazer os documentos de meu provável futuro cliente.

 

O motoboy mais estranho do mundo.

 

Durante as horas seguintes, analisei o material, para decidir se aceitaria ou não o trabalho. No caso de aceitar, teria de seguir o procedimento estritamente correto de um estudioso da ecologia de aves. Ou seja, estar em campo antes do sol nascer para coletar os dados no horário mais adequado, os primeiros momentos da manhã.

 

O que significaria: chegar ao cemitério de madrugada, munida de binóculo, gravador e caderneta de anotação, e então ir registrando, com precisão, todas as alminhas empenadas que fossem aparecendo.

 

Se aceitei ou não o trabalho? Uma outra hora eu conto... 

 

 

São Paulo,

15 de agosto (mês de cachorro doido) de 2001

 

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