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De pios e arrepios

 

Martha Argel

 

 

 

Vou lhe contar um segredo.

 

Quando um ornitólogo diz que vai pro mato olhar passarinho, ele não vai olhar passarinho. Quer dizer, ele não vai olhar passarinho. Ele vai também escutar passarinho. Principalmente se for mesmo pro mato, e não pro campo, pro cerrado, pro eucaliptal...

Ué, estranha você, que que quer dizer isso?

 

Quer dizer que ir para a floresta estudar aves não é como estar num filme do Indiana Jones. Você não vê papagaios, tucanos e araras em cima de cada galho na beira do caminho. Se vir uma corruíra ou um sabiá pode ficar muito satisfeito. Você não vê, mas isso não quer dizer que as aves não estejam lá. Elas estão, só que escondidas atrás de folhas e galhos e troncos, das camadas e camadas da exuberante biodiversidade vegetal que é característica das florestas tropicais que tanto amamos e queremos proteger. A vegetação impede que vejamos as aves. Mas não impede que as escutemos.

 

E se a gente conhece bem as vozes das aves, nem é necessário ver um bicho para saber quem ele é. Basta identificar o canto. Prático, não? Bom, na verdade não é tão simples assim, mas nalgum outro dia a gente fala disso.

 

Então, como ia dizendo, quando um especialista em aves estuda a fauna de aves de uma área, ele vai não só de olhos abertos mas também de ouvidos atentos. E da mesma forma como usa os binóculos para ver melhor a bicharada, ele usa alguns truques para aproveitar melhor toda a imensa gama de cantos e trinados e pios e gritos e chiados que as aves produzem na floresta.

 

Um dos truques é levar um gravadorzinho (dependendo, um gravadorzão) e pôr em prática o que a gente chama de técnica de  play-back, que é assim: você escuta uma ave cantando e não sabe qual é. Então saca de seu gravadorzinho, grava o som do bicho e logo em seguida toca de volta a gravação. E por que disso? A teoria por trás da coisa diz que a ave, ao ouvir a gravação, vai achar que há outro indivíduo da sua espécie em seu território, e vai querer investigar e expulsar o intruso. Para isso ela se aproxima. E o ornitólogo tem sua chance de vê-la e descobrir a que espécie pertence.

 

Nem sempre dá certo, mas é bacana. Se algum dia você virar um ornitólogo (ou observador de aves), nunca saia pro mato sem seu gravadorzinho.

 

Mas eu tenho um causo de  play-back para contar.

 

Foi, de novo, no Espírito Santo, naquela mata que estudei em meu doutorado.

 

Lá estava eu, vestida de verde, escondida atrás de uma moita, deitada de costas em meu retalho de lona, estudando as aves que comiam frutos na copa esgalhada da árvore acima de mim. Quer dizer, tentando estudar.

 

Estava um tédio. Os bichos não vinham.

 

Então escutei uma sururina assobiando. A sururina, que tem o nome científico de Crypturellus soui, é uma ave gordinha que vive pelo chão e que se parece, na forma, com uma dessas codornas de granja, mas é um pouco maior, não é pintada e nem é parente dela.

 

A sururina tem um pio bem musical, triste e trêmulo. Eu nunca tinha visto uma sururina, só escutado, e em meu estado de tédio profundo, ocorreu-me já que estou bem camuflada e quieta aqui, vou fazer um  play-back e atrair a sururina. Levantei o gravadorzinho já ligado e registrei o próximo pio da ave. Meio desafinado, pensei, mas supus que seria um bicho jovem, ainda não muito proficiente no ofício do canto.

 

Toquei o pio de volta. O bicho respondeu lá longe. Oba!

 

Toquei. Respondeu. Parecia mais perto. Uau, funcionava!

 

E assim foi indo. Eu lá deitada, tocando a gravação, e o bicho respondendo, cada vez mais perto.

 

Sentei-me, atrás de minha moita, na expectativa de ver uma sururina pela primeira vez. Ela agora estava bem perto.

 

Toquei mais uma vez, e mais uma vez ela respondeu. Ela apareceria, em meio ao sub-bosque da mata, a qualquer momento.

 

Mas...

 

Bem naquele instante ouço barulho no mato. Coisa grande. Grande demais para uma sururina. Ah, não!, pensei, justo agora meus mateiros escolhem vir pra cá!

 

Mas... ei! O barulho vinha da trilha da esquerda, a que margeava o rio, e não da trilha que vinha do acampamento, a da direita!

 

Um alarme disparou na minha cabeça quando comecei a juntar fatos: sururina desafinada – barulho grande no mato – trilha errada – caçador adora sururina...

 

O fato é que não são só os ornitólogos que fazem  play-back. Os caçadores mais experientes costumam ter uma coleção de pequenos apitos de madeira chamados pios. O nome diz tudo, né? Cada pio imita, justamente, o canto de uma ave considerada de caça. Então: o que o ornitólogo faz com o gravador, o caçador faz com o pio.  play-back: ele toca apito e atrai a ave. Só que o ornitólogo atrai para estudar; o caçador, para matar.

 

E não deu outra.

 

De repente aparece na trilha um fulano corpulento, de rosto redondo e camisa azul, espingarda na mão. Atrás dele, outro sujeito, mais miúdo, mais magro.

 

Ai, ai, ai, eu me arrepiei da cabeça aos pés.

 

Não havia sururina nenhuma. Minha sururina desafinada eram eles com um pio. A sururina que eles buscavam era eu, com meu gravador. Ridículo, não? Estivéramos o tempo todo, um fazendo  play-back pro outro, e todo mundo crente de que era muito esperto e que no final teria a sua sururina. E não havia sururina nenhuma!

 

Vejamos: eu sozinha no mato, quase invisível atrás de uma moita, e dois caçadores armados crentes de que em algum lugar por ali havia uma sururina pronta pra ser abatida a tiros. Caçadores ilegais, daqueles que se forem pegos são presos, sabe?

 

O que você faria numa situação daquela?

 

O que eu fiz foi...

 

– Opa, companheiro, vira essa arma pra lá, não vai me dar um tiro, não!

 

O sujeito deve ter levado um bruto dum susto. Uma voz incorpórea – ele ainda não tinha me visto, e não sabia onde eu estava – saindo do mato assim de repente, bem no lugar onde deveria estar sua presa... Sururina falante?

 

Os olhos dele me encontraram. Ele ficou imóvel. Não disse nada. Não devia estar entendendo nada.

 

– Vocês me assustaram, – continuei – achei que eram meus companheiros, que estão pra chegar, aliás estão atrasados, só que eles vão vir por aquela outra trilha ali...

 

E os dois lá, mudos, paralisados, me olhando.

 

– E aí, muita caça? – perguntei, amigável.

 

– É... hum... não – resmungou o caçador da cara redonda.

 

Um silêncio incômodo se instalou, e então eles, de comum acordo, deram meia volta e saíram em disparada pela mesma trilha por onde tinham vindo. O barulho dos dois correndo no meio do mato me fez pensar numa manada de antas em fuga.

 

Quando consegui sair da paralisia causada pela tensão, juntei as coisas na mochila e foi minha vez de sair correndo. Pela outra trilha, em direção ao acampamento.

 

Nunca mais voltei àquele trecho de mata.

 

Nunca mais escutei sururinas desafinadas.

 

E, pelas dúvidas, nunca mais fiz  play-back de aves de caça!

 

 

São Paulo, 17 de dezembro de 2001

 

 

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