top

 

 

 

O samambaiuçu do coisa-ruim

 

Martha Argel

 

 

 

Eu estava fazendo um estudo de impacto ambiental em Campos do Jordão, estado de São Paulo mas quase Minas Gerais, quando descobri algo raríssimo: um bom contador de causos. O Albertino, nosso mateiro, tinha história pra mais de metro, e ia contando uma atrás da outra. Tudo completamente absurdo, mas jurava ele que tinha acontecido com ele, com o tio, com o avô.

 

Usando o gravador que normalmente serve para gravar as vozes das aves, consegui registrar alguns dos causos, como esse que vou contar agora e que me pareceu particularmente divertido. Procurei ser o mais fiel possível ao jeito como o Albertino fala. Ah, e se você não sabe o que é samambaiuçu, é um tipo de samambaia que cresce na floresta tropical, alta, com um tronco grosso e espinhento, e folhagem frondosa (em tupi, açu ou uçu significa grande).

 

 

 

– Esse aqui cheio de espinho é o samambaiuçu – explicou o Albertino, apontando a planta enquanto caminhávamos pelo meio da mata. – Tinha uma arve dessa aí do lado daquele riozinho, o Ribeirão Coxim. Aí o meu tio falou assim:

 

''– Eu dou tanto procêis, ocê e o outro rapaiz, rancá o samambaiuçu e prantá lá no gramado de casa.

 

''Nóis falemo que sim. Aí vai eu e o primo meu rancá o samambaiuçu, e nóis ranquemo ele. Ranquemo ca raiz, uma puta duma batatona, pra podê enterrá ele e ele não morrê, não murchá. Rapaiz, deu trabaio pra nóis levá esse samambaiuçu... – porque ele é cheio de espinho, né? – ... levá ele com rama e tudo e prantá lá.

 

''Levamo, chegamo lá, fizemo um buraco bem fundo prele não caí e pusemo o pé dele lá dento. E quem diz que nóis consegue levantá o tronco dele?

 

''Aí meu tio, que tava pagando nóis pra prantá ele, foi lá e judô nóis levantá ele e ponhá ele den'do buraco. Pusemo ele de pé den'do buraco, enterramo e socamo bem a terra. Aí o meu vô chegô, ponhô a mão nele assim, balançô e falô assim:

 

''– Esse aqui nem coisa-ruim num ranca.

 

''Aí passô. No otro dia, meu tio, o que pagô nóis, levantô. Levantô, chegô lá, oiô, e aí chamô nóis doi. Aí ele falô assim:

 

''– Que que adianta eu pagá ocêis pra prantá a arve pra mim, si ocêis me ranca a arve de novo?

 

''Aí eu:

 

''– Mai quem que rancô? Nói deitamo na cama, durmimo, nói tamo levantano agora...

 

''– Cêis num viero de noiti aqui rancá?

 

''– Não.

 

''Aí nói pegamo, levantamo, fumo oiá lá. Num tava lá a pranta. Quem pegô, pegô a pranta assim, i puxô pra cima assim, rancô, e levô. Nem um sinal por onde passô co samambaiuçu. Num apareceu sinal.

 

''Se alguém tivesse rancado ele e fosse rastano, ia ficá um sinal, terra pedaço de folha. Num apareceu nada. Sumiu, a pranta.

 

''Aí meu tio resolveu í pescá. Aí ele pegô, foi andando, andando, até que ele acha o samabaiuçu bem no meio da ilha que tem no rio. Pois passaro com esse samabaiuçu por cima da ponte!

 

''Era o memo samambaiuçu. Tava rancado, deitado no chão. Só qui num apareceu terra, nem apareceu sinal por onde ele passô, nada.

 

''E óia que nóis, que levamo ele pra prantá, nóis levava, andava uns dois metro co'ele, ponhava no chão, descansava, andava mai uns dois metro, cansava, ponhava no chão... Ficou um rasto por ondi nóis passemo co ele pra levá pra prantá.

 

''Mais daonde foi arrancado e levado na ilha num pareceu sinal nenhum.''

 

– E que que você acha que aconteceu? – perguntei eu ao Albertino quando ele terminou de contar o causo.

 

– Uai, agora fica a pergunta. Aí meu vô sempre fala: ''Num brinca co samambaiuçu, não!''

 

  

São Paulo, 22 de maio de 2002

(com base em entrevista feita em 9 de novembro de 2001)

 

 

alto da página

Minhas crônicas