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Citação bibliográfica

 

Argel, M., 2002. A avifauna da Reserva da Foz do Comboios, município de Aracruz, estado do Espírito Santo.  In: www.marthaargel.com.br. Acessado em [data do seu acesso].

 

Atenção: este é um trabalho inédito, divulgado aqui por primeira vez.

 

--- Lembre-se sempre de citar a fonte de informações obtidas na Internet --- 

--- Seja ético e respeite os autores ---

 

 

 

  

A avifauna da Reserva da Foz do Comboios,

município de Aracruz, estado do Espírito Santo

 

 

Martha Argel

 

 

Introdução

A avifauna das restingas brasileiras não foi objeto de muitos estudos. Houve levantamentos das espécies de aves em praias de vários Estados, mas o conhecimento chega a ser razoável apenas em alguns estados. Ver em Argel-de-Oliveira (1999) uma revisão desses estudos.

Para as restingas do Espírito Santo, há apenas trabalhos sobre a biologia de algumas espécies ou grupos de espécies, e registros de ocorrência de determinadas aves.

No que diz respeito à praia de Comboios, há algumas informações no artigo de Argel-de-Oliveira & Pacheco (1998) sobre a ocorrência de duas espécies do gênero Mimus, M. saturninus e M. gilvus, na costa sudeste brasileira. Ambas espécies ocorrem em Comboios. Em Argel-de-Oliveira et al. (1993) há informações sobre a ocorrência de Tangara peruviana na costa capixaba, inclusive em Comboios.

Um comentário deve ser feito quanto ao trabalho de Ruschi (1978) sobre a avifauna da Reserva Biológica de Comboios, cujas informações não serão levadas em conta no presente estudo. O artigo inclui uma lista de 343 espécies de aves que ocorreriam na área e, ao ser publicado, visava eliminar dúvidas quanto à necessidade de proteção à área e demonstrar que ela era um reduto excepcional de espécies ameaçadas – o autor cita 12 espécies ameaçadas que aí ocorreriam. Em sendo acurada a listagem, a REBIO abrigaria 9 espécies hoje consideradas ameaçadas de extinção por Wege & Long (1995), o que a qualificaria como uma das mais importantes áreas brasileiras para a conservação de aves.

Apesar da intenção louvável, porém, a lista de Ruschi não resiste a uma análise mais profunda: inclui espécies que não existem nas terras baixas capixabas (Pyrrhura frontalis e Saltator similis, p.e. [J.F. Pacheco, com. pess.]) e ignora algumas das espécies mais comuns na área (Thamnophilus punctatus, Myrmotherula axillaris, Myiozetetes similis, Myiarchus tyrannulus, Todirostrum cinereum, Cacicus haemorrhous, Saltator maximus, Parula pitiayumi; faltam na lista de Ruschi 5 das 21 espécies anotadas nas 3 primeiras horas do presente trabalho na restinga de Comboios), e dentro de alguns grupos inclui espécies raríssimas e de avistamento difícil, mas exclui as mais banais (p. e., entre os falconiformes estão Harpia harpyja e Morphnus guianensis, mas não Buteo magnirostris e Cathartes burrovianus). Não é nem remotamente provável, ainda, a presença de Thamnophilus doliatus, T. caerulescens, Serpophaga subcristata, Cyclarhis gujanensis e Tachyphonus coronatus, espécies que foram objeto de especial procura durante todo o presente estudo, que incluiu 700 horas de campo. Quanto a espécies ameaçadas, nenhuma das que Ruschi citou foi observada neste estudo, embora três outras tenham sido detectadas (Amazona rhodocorytha, Touit surda, Tangara peruviana). É improvável, assim, que a lista de Ruschi tenha resultado de trabalho de campo exaustivo na REBIO de Comboios, e em vista de tudo não é conveniente usar os dados de Ruschi.

O presente trabalho apresenta a lista das 174 espécies observadas na área e analisa a fauna de aves terrestres (são excluídas as espécies paludícolas e aves avistadas apenas sobrevoando a área). É feita uma análise espacial e temporal de sua ocorrência na área.

           

 

Material e Métodos

O trabalho foi desenvolvido na Reserva da Foz do Comboios (RFC, 19º46’S – 40º02’W), situada na praia de Comboios, município de Aracruz, estado do Espírito Santo. A Reserva, de propriedade da Aracruz Celulose S.A., e com área de 394 ha, ocupa o interflúvio dos rios Riacho e Comboios, que a limitam respectivamente a oeste e a leste e cuja confluência assinala o limite sul da área. A área localiza-se em extensa planície quaternária, formada por areias de deposição flúvio-lacustre e marinha. O relevo é plano e as maiores altitudes são de 2,5 m s.n.m.

A maior parte da área tem fisionomia arbórea fechada (mata de restinga), segundo Pereira (1992) correspondendo a “formação mata seca”; o trecho paralelo ao rio Comboios tem características de “mata de mirtáceas”. Em alguns pontos há uma vegetação aberta, provavelmente fruto de corte raso da vegetação original: arbustos e arvoretas formam capões de altura e diâmetro irregulares em meio a trechos onde o substrato, uma areia muito branca, está exposto. Entre a mata e o Comboios há vegetação de brejo, e entre a mata e o Riacho há lagoas cercadas por vegetação de brejo, resultantes da retificação do rio, e algumas áreas abertas, onde cresce vegetação ruderal de porte arbustivo.

No presente trabalho adota-se a seguinte denominação para os ambientes estudados:

mata de restinga: vegetação arbórea fechada, composta por espécies nativas. Duas fisionomias foram distinguidas, mata alta, estratificada e mais alta e mata baixa, sem estratificação e com porte mais baixo;

clareiras: áreas abertas em meio à mata baixa. Para os fins deste estudo, inclui a área aberta em si e as bordas, isto é, o ecótono com a mata circundante;

borda: bordas externas do fragmento de mata de restinga, que confinam com as áreas abertas antrópicas circundantes;

área aberta: áreas antropizadas, tomadas por vegetação ruderal e externas à mancha de vegetação arbórea, situadas principalmente entre esta e o rio Riacho.

Para mais detalhes sobre vegetação, ver Argel-de-Oliveira (1999).

Foram feitas 14 viagens à área, de janeiro de 1993 a fevereiro de 1994. A cada viagem foram conduzidos de cinco a dez dias de trabalho de campo, num total de 93 dias e cerca de 700 horas. A chegada a campo ocorria, em geral, pouco antes do nascer do sol, e as observações eram iniciadas tão logo houvesse claridade suficiente para a identificação das aves. Foram feitas observações durante todo o período diurno, do nascer ao pôr-do-sol, mas foram mais intensas nas primeiras horas da manhã. A identificação das aves foi feita através de registro visual e das vocalizações.

Os dados do presente levantamento foram coligidos durante um estudo de frugivoria por aves para a tese de doutorado de Argel-de-Oliveira (1999).

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Resultados e Discussão

Foram registradas, na Reserva da Foz do Comboios (RFC), 144 espécies que de alguma forma utilizaram recursos oferecidos pela vegetação terrestre (Tabela 1 e Tabela 2). Outras 23 têm de ocorrência estritamente associada a ambientes aquáticos, e ainda outras sete apenas sobrevoaram a área a grande altura (ver lista na legenda da Tabela 1); essas espécies são excluídas das análises a seguir.

Três das espécies observadas – Amazona rhodocorytha, Touit surda e Tangara peruviana – estão incluídas em listagens de espécies ameaçadas de extinção, como a da IUCN (BirdLife International, 2000) e a Lista Oficial de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção (Portaria IBAMA 1522/1989).

 

Distribuição por hábitat

A avifauna que habita a RFC provavelmente foi descaracterizada em função do desmatamento, da redução da área de vegetação nativa e do aumento do efeito de borda, mas é difícil afirmar de fato qual a magnitude do impacto dessas ações sobre a fauna. O ambiente de restinga é extremamente recente, pois cresce em terrenos que se formaram nos últimos 5500 anos. Tal juventude deve significar que, mesmo antes de qualquer interferência antrópica significativa, a restinga de Comboios já tinha uma fauna relativamente pobre em espécies.

Os ambientes em que cada espécie foi registrada são mencionados na Tabela 1. A Tabela 3 indica o número de espécies encontrado em cada ambiente estudado na área, e o número de espécies em comum entre pares de ambientes.

A vegetação nativa de porte arbóreo não abriga, na área, uma fauna muito diferenciada: 37% das espécies de aves aí observadas foram registradas também em ambientes abertos. Das 12 espécies observadas exclusivamente em ambiente florestal, a maioria foi registrada uma única (Geotrygon montana, Machaeropterus regulus) ou duas vezes (Leptodon cayanensis, Touit surda, Glaucidium brasilianum, Xenops minutus, Pachyramphus marginatus, Phyllomyias fasciatus). Chordeiles acutipennis também sobrevoa ambientes aquáticos, enquanto Myiodynastes maculatus foi observado em ambientes antropizados (áreas abertas, eucaliptais) em áreas próximas. Quanto a Herpetotheres cachinnans e Ortalis guttata foram ouvidos em vistos sempre em um fragmento de mata tão diminuto que talvez fosse mais apropriado considerá-lo todo como borda de mata. De todas essas espécies, as únicas que poderiam ser consideradas realmente florestais seriam X. minutus, G. mantana e M. regulus.

O ambiente com maior número de espécies registradas, e maior número de espécies exclusivas, foi o ambiente aberto de origem antrópica.

A fauna das clareiras incluiu muitas espécies em comum com a vegetação de restinga, mas apenas 33 espécies (23%) estiveram restritas a esses dois tipos de vegetação. Em contraste, 61 espécies, ou 78% das aves presentes nas clareiras também estavam presentes nos ambientes abertos antrópicos, externos à mancha de vegetação de restinga

Cerca de 38% (54) de todas as espécies tiveram amplo espectro de ocorrência, existindo tanto nas vegetações arbóreas nativas quanto nas áreas externas (e a maioria também em bordas, clareiras ou em ambas).

Nas circunstâncias de isolamento e alteração em que a RFC se encontra, parece ser pequeno sua eficiência na preservação de aves florestais. No entanto, essa inexpressividade é relativa, e não implica que o papel da área na conservação da biodiversidade seja pequeno. Pelo contrário, é possível que a reserva abrigue aves que já desapareceram de praticamente toda a grande planície quaternária da foz do rio Doce, de cujas extensas e exuberantes florestas muito pouco restou.

 

 Permanência na Área

O padrão temporal de permanência de cada espécie na área está apresentado na Tabela 2.

Residentes: a maior parte das espécies tem populações comprovada ou presumivelmente residentes durante todo o ano, na área ou pelo menos na região de Comboios (daqui em diante chamadas apenas “residentes”). É o caso de 96 espécies, ou 67,6% das 142 espécies detectadas (excluídas Elaenia sp. e Myiarchus sp.). Muitas foram registradas em todos ou quase todos os meses do ano.

Algumas aves residentes na área são tidas como migratórias em outras regiões, como Glaucis hirsuta (Cintra & Yamashita, 1990) e Myiarchus tyrannulus (Sick, 1997; Hutto, 1992); as populações meridionais de Tyrannus melancholicus, Progne chalybea, Stelgidopteryx ruficollis migram no inverno (Narosky & Yzurieta, 1987; Ridgely & Tudor, 1989; Belton, 1994; Argel-de-Oliveira, 1995); Vireo olivaceus migra, embora seus deslocamentos sejam mal entendidos (Ridgely & Tudor, 1989); há menções a migrações de Volatinia jacarina (Olmos, 1989; Anjos & Graf, 1993) e Sporophila caerulescens (Anjos & Graf, 1993).

Isler & Isler (1987) dizem que há movimentos sazonais de Dacnis cayana, mas na RFC não houve variação perceptível em sua abundância. Tampouco observou-se flutuação nos números de Euphonia chlorotica, que Sick (1997) diz deixar as serras do Espírito Santo no inverno.

Cyanerpes cyaneus era abundante de dezembro a maio, mas de junho a novembro houve poucos avistamentos e baixas freqüência de captura em rede (sem capturas de junho a outubro) e de visitação a plantas com frutos. Assim, ou parte da população é migratória ou a população que se reproduz na época quente é substituída, nos meses mais frios, por indivíduos que invernam na região. Segundo Isler & Isler (1987), a ave tem movimentos sazonais relacionados a floração e frutificação de suas árvores prediletas. Willis (1987), ademais, registra o movimento migratório da espécie. É possível que seja migratória na região, mas o assunto ainda requer estudo.

Há espécies, aqui consideradas residentes e sem citações de migrações na literatura, que parecem sumir sazonalmente da RFC mas que continuam sendo registradas em áreas próximas, o que indicaria movimentação no âmbito regional, talvez entre ambientes menos ou mais favoráveis: Cathartes aura (poucos registros de agosto a dezembro); C. burrovianus (sem registro de março a maio); Forpus crassirostris (registros relativamente numerosos mas descontínuos; só Sick [1997] fala em migração); Nyctidromus albicollis (sem registro de março a maio, apesar de ser de fácil detecção); Chlorestes notatus (sem registro em vários meses, embora nos outros seja vista com freqüência); Amazilia fimbriata, (sem registro de julho a setembro, e em outubro e novembro registrada só fora da reserva); Mimus gilvus (comum nas restingas abertas mais intactas, mas com poucos registros, talvez de errantes, na área); Ramphocelus bresilius (talvez o mesmo caso); Turdus leucomelas (sem registro por quatro meses, embora presente em áreas próximas); Sporophila leucoptera (sem registro de julho a outubro). Ao menos no caso de aves frugívoras (Mimus gilvus, Ramphocelus bresilius, Turdus leucomelas) a ausência de registros deve refletir ausência efetiva da RFC, pois dificilmente sua presença passaria despercebida por tanto tempo em que as aves frugívoras estavam sendo intensamente estudadas.

Há menções a deslocamentos locais para espécies com registros esparsos na RFC ou que somem por alguns meses: Molothrus bonariensis (Belton, 1994; Argel-de-Oliveira, obs. pess.), Tangara cayana (Isler & Isler,1987), Thraupis palmarum (Argel-de-Oliveira, 1995).

Para várias espécies características de áreas abertas (Falco femoralis, Falco sparverius, Melanerpes candidus, Colaptes campestris, Sporophila caerulescens, Zonotrichia capensis, Emberizoides herbicola), escassez de registros e eventuais lacunas de vários meses na detecção podem resultar de falta de observação, pois a maior parte do estudo decorreu em áreas mais vegetadas (mata de restinga e restinga arbórea). O mesmo vale para Fluvicola leucocephala, de ambientes aquáticos, e para Thamnophilus palliatus, aparentemente um residente cuja ocorrência, na região, parece estar mais associada a outros ambientes que não a restinga. Tais ambientes foram pouco estudados, o que explicaria a descontinuidade nos registros.

No caso de algumas espécies detectadas principalmente pela voz (Crypturellus parvirostris, Rhynchotus rufescens, Tapera naevia, Nyctidromus albicollis, Myospiza humeralis), a falta de registros no fim do verão e no outono (principalmente março a maio) talvez decorra de inatividade vocal. T. naevia, por exemplo, não vocaliza de fevereiro a maio no sul de Minas Gerais (Sick, 1997). Lacunas nos registros de Herpetotheres cachinnans também poderiam advir de variação sazonal no comportamento vocal.

Baixa densidade populacional ou hábitos de vida crípticos explicariam a baixa freqüência de detecção de algumas aves não mencionadas na bibliografia como migrantes: Columba speciosa, Leptotila verreauxi, Geotrygon montana, Glaucidium brasilianum, Phaethornis idaliae, Galbula ruficauda, Pteroglossus aracari, Xiphorhynchus picus, Xenops minutus, Formicivora grisea, F. rufa, Manacus manacus, Hylophilus thoracicus, Nemosia pileata e Psarocolius decumanus. São intrigantes os longos períodos sem detecção de M. manacus e N. pileata, ambos frugívoros de pequeno porte, o grupo mais intensamente estudado na RFC.

Ortalis guttata foi detectada na área pela voz, em dois dias consecutivos de julho. Graças à vocalização potente, a ave não passaria despercebida caso estivesse presente na área no restante do período estudado. Isso talvez indique a ocorrência de movimentação, ao menos regional, embora considere-se a espécie como sedentária (Del Hoyo, 1994).

 

Migrantes: são claramente migratórias, ou dão indicações de sê-lo, 22 espécies (15,5% do total). Diversas espécies cujos registros concentraram-se em determinadas épocas são bem conhecidas como migrantes:

Ictinia plumbea, Hydropsalis brasiliana, Myiophobus fasciatus, Myiodynastes maculatus, Tyrannus savana (que parece só sobrevoar a área) e Tangara peruviana desaparecem da porção sul de sua distribuição nos meses frios (Sick, 1983, 1997; Anjos, 1984; Narosky & Yzurieta, 1987; Collar et al., 1992; Anjos & Graf, 1993; Argel-de-Oliveira et al., 1993; Narosky & Di Giacomo, 1993; Belton, 1994; Ridgely & Tudor, 1994);

Chaetura andrei: o padrão dos registros na RFC sugere sua passagem pela área no fim do verão, quando ruma para as áreas de invernada ao norte (Venezuela, Meyer de Schauensee & Phelps, 1978), e no começo da primavera, quando voa para regiões austrais (Rio Grande do Sul, Belton, 1994; Argentina, Narosky & Yzurieta, 1987).

­– Notiochelidon cyanoleuca parece fixar-e na RFC no inverno; seria migratória no sul de sua área de ocorrência (Meyer de Schauensee, 1970; Ridgely & Tudor, 1989).

Phaeoprogne tapera, Progne subis e Hirundo rustica, aparecem na área só no verão. As três são migratórias (Meyer de Schauensee & Phelps, 1978; Sick, 1983, 1985; Narosky & Yzurieta, 1987; Ridgely & Tudor, 1989; Belton, 1994); as duas últimas apenas sobrevoaram a área, sem se fixarem.

– alguns possíveis migrantes altitudinais: Procnias nudicollis, presente na RFC nos meses de temperatura mais baixa, deixa as regiões austrais no frio (Narosky & Yzurieta, 1987; Ridgely & Tudor, 1994; Belton, 1994), mas há menção a uma possível migração altitudinal (Ridgely & Tudor, 1994); Platycichla flavipes, presente na RFC no outono e no inverno, migra latitudinalmente no Rio Grande do Sul (Belton, 1994), mas no Rio de Janeiro é difícil dizer se as migrações são lati ou altitudinais (Sick, 1983); Turdus amaurochalinus, comum na RFC nos meses mais frios, talvez deixe as baixadas no verão, mas para Sick (1997) pode ser migrante latitudinal.

Chelidoptera tenebrosa migra depois da reprodução (Sick, 1997).Os registros na RFC (março de 1993 e fevereiro de 1994) são insuficientes para determinar se se fixa na área ou se apenas passa por ela.

Há espécies cuja condição de migrantes parece clara na área. Não existe consenso, porém, entre os autores consultados, ou as informações disponíveis são poucas. Este último é o caso de Touit surda, talvez visitante de inverno. Collar et. al. (1992) acham possível que a espécie migre, mas não há dados quanto à eventual amplitude do movimento.

Chordeiles acutipennis foi visto na RFC no outono e no inverno. Não há menções a migração no sul de sua distribuição, mas Sick (1997) diz que migra em larga escala no inverno, aparecendo inclusive no Espírito Santo. No Amazonas, aparece de janeiro a abril (Peres & Whittaker, 1991).

Talvez a presença de Anthracothorax nigricollis (dois registros em outubro) se deva a migração, mencionada para o Rio Grande do Sul (Belton, 1994).

Os vários registros de Cnemotriccus fuscatus no outono e no inverno contrastam com sua ausência nos meses mais quentes, sugerindo permanência sazonal na RFC. A maioria dos autores não fala em migração, embora trabalhos feitos no sul indiquem que ocorra (Belton, 1994; Anjos & Graf, 1993).

Satrapa icterophrys parece ser, na RFC, um visitante de inverno, mas na literatura sua situação é controversa: Sick (1997) e Narosky & Yzurieta (1987) não falam em migrações, Belton (1994) duvida que existam e Meyer de Schauensee & Phelps (1978) e Ridgely & Tudor (1994) dizem que ocorrem, mas que podem ser parciais. Num estudo de nove anos em São Paulo, a espécie foi vista o ano todo (salvo julho), mas com registros muito mais numerosos na época quente (outubro a abril) (Argel-de-Oliveira, n. publ.). Num estudo no Paraná não há registros de fevereiro a outubro (Anjos & Graf,1993).

São também díspares as informações sobre duas andorinhas: para Belton (1994), Tachycineta albiventer migra, mas Narosky & Yzurieta (1987) e Ridgely & Tudor (1989) consideram-na residente; na RFC, a ocorrência restrita ao verão e início do outono sugere fixação temporária de uma população migrante. Já T. leucorrhoa surge na RFC esporadicamente (julho a novembro), talvez sem se fixar na área; no sul, é dada tanto como migratória (Ridgely & Tudor, 1989; Belton, 1994) quanto como residente (Narosky & Yzurieta, 1987).

Dentre as espécies migratórias, poucas parecem fixar-se na RFC por períodos longos. Na época mais fria, estabelecem-se na região C. acutipennis, P. nudicollis, M. fasciatus, C. fuscatus, N. cyanoleuca, P. flavipes e T. amaurochalinus; na época mais quente, apenas T. albiventer.

 

Tipo de Permanência não Determinado: os registros de 24 espécies (16,9%) são insuficientes para definir se são residentes ou migratórias.

Ao menos sete espécies devem constituir uma terceira categoria, a de aves errantes, em que os indivíduos se deslocam sem se fixarem por muito tempo em uma área.

Leptodon cayanensis (visto na RFC em setembro e novembro) é considerado por Belton (1994) como “vagante”. Num estudo de nove anos, em São Paulo, a espécie foi vista apenas em dois dias consecutivos (Argel-de-Oliveira, n. publ.).

Os bandos de Streptoprocne zonaris, com registros esparsos na RFC ao longo do ano, parecem vaguear por grandes distâncias e, para Sick (1997) não fazem migrações verdadeiras. Em alguns estudos a espécie é registrada o ano todo (no Paraná, Anjos & Graf, 1993), e em outros são assinaladas visitas irregulares (em São Paulo, Olmos, 1989; na Venezuela, Thomas, 1993).

Duas espécies vistas uma só vez, Furnarius figulus e Fluvicola nengeta, estão expandindo sua distribuição, do nordeste do Brasil em direção ao sul (Alvarenga, 1990; Willis, 1991; Willis & Oniki, 1993; Ridgely & Tudor, 1994). Tais aves devem ter por hábito vaguear para longe de território natal, de forma que parece provável a observação de indivíduos errantes.          

Tersina viridis (um registro de um indivíduo na RFC) é migratória no sul (Sick, 1983; Narosky & Yzurieta, 1987; Anjos & Graf, 1993), no norte da América do Sul parece migrar altitudinalmente (Schaefer, 1953, apud Isler & Isler, 1997) e fora do período reprodutivo tem hábito errante (Isler & Isler, 1987; Ridgely & Tudor, 1989).

Turdus rufiventris deve aparecer na região de Comboios em decorrência de deslocamentos a partir de outras regiões.Sick (1983) e Belton (1994) preferem não chamar a movimentação dessa ave de migração, atribuindo-a à procura por locais com maior disponibilidade de alimento. Houve só dois registros na RFC (junho e agosto), mas sua presença em áreas próximas, entre fevereiro e abril, sugere, ademais, movimentação dentro da própria região de Comboios.

O único indivíduo de Passer domesticus registrado na área pode ser um errante vindo da Vila do Riacho, poucos quilômetros ao norte do local do avistamento.

As outras espécies cujo status não pôde ser determinado são:

Laterallus viridis: a falta de registros pode advir de inatividade vocal, mas não se descarta a possibilidade de migração, pois Sick (1997) fala de migrações para uma espécie congenérica (L. melanophaius).

Columbina picui: a concentração dos registros no fim do verão e início do outono sugere migração, mas esta não é referida na literatura. Talvez a espécie faça movimentos entre ambientes, podendo-se pensar o mesmo sobre Columbina minuta.

Hylocharis sapphirina e Polytmus guainumbi: sem menções a migração, a não ser em Cintra & Yamashita (1990), que as consideram sazonais no pantanal de Poconé. Ambas foram vistas uma só vez na RFC.

Pachyramphus polychopterus: tido como migratório no sul de sua distribuição (Anjos & Graf,1993; Narosky & Di Giácomo, 1993; Ridgely & Tudor, 1994; Belton, 1994). Poder-se-ia suspeitar que estivesse na RFC apenas nos meses mais quentes, não fosse um registro (por Evânio T. Scopel) em julho. Sua situação na área não é clara, bem como a de P. marginatus, sem menção a migrações na literatura.

Phyllomyias fasciatus: para alguns autores, as populações meridionais poderiam migrar (Anjos & Graf, 1993; Belton, 1994; Ridgely & Tudor, 1994), mas outros nada dizem.

Anthus lutescens: só Sick (1997) fala em migração das populações austrais.

Pipraeidea melanonota: não há menções de migração, mas um único registro na RFC dessa espécie frugívora, que dificilmente teria passado despercebida caso estivesse presente em outras épocas, indica a ocorrência de deslocamentos de populações na região.

Há menções a deslocamentos altitudinais de Sporophila nigricollis no Espírito Santo (Sick, 1997) e a variações sazonais na abundância em alguns locais (Ridgely & Tudor, 1989), mas outros autores mencionam não deslocamentos da espécie, registrada na RFC em setembro e novembro.       

Não há na literatura dados sobre a ocorrência ou não de migrações de algumas espécies pouco vistas na RFC: Malacoptila striata, que apesar de ser facilmente detectada, não foi vista na área durante parte do outono e inverno, sugerindo deslocamento; dois pica-paus, Veniliornis affinis e Piculus chrysochloros; Machaeropterus regulus (visto uma vez); Mionectes oleagineus (uma captura em rede); e Sporophila collaris (um registro e um possível avistamento).

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Agradecimentos

 

À CAPES e à Aracruz Celulose S.A., financiadoras do estudo que gerou os dados aqui analisados. A José Fernando Pacheco, Dante Renato C. Buzzetti, Pablo G. Carrasco e Solange Castanheira pelas sugestões e informações. A meus ajudantes de campo José da Penha Rodrigues, Evânio T. Scopel, Louzival Loureiro e Marquinhos Aires, por terem tornado possível o trabalho no local. À Giulia Moon pelo incentivo à divulgação tardia destes dados (mas antes tarde do que nunca!) e à Cintia “Carmilla” Lacerda pela consultoria internética.  

 

Bibliografia

 

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