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Citação bibliográfica

 

Argel-de-Oliveira, M. M., 1997. O papel do eucalipto (Eucalyptus sp.) na alimentação de aves urbanas em São Paulo, Brasil.  p. 67. In: Encuentro Boliviano para la Conservación de las Aves, 3, Santa Cruz de la Sierra, 1996. Actas. Santa Cruz de la Sierra, Armonia, BirdLife International.

 

 

 

 

O papel do eucalipto (Eucalyptus sp.) 

na alimentação de aves urbanas em São Paulo, Brasil

 

Maria Martha Argel-de-Oliveira

São Paulo, SP (Brasil)

  

Originários da Austrália, os eucaliptos (Eucalyptus spp., família Myrtaceae) começaram a ser plantados em outros continentes em meados do século passado, para produção de lenha e de celulose e como planta ornamental. Em 1981, um levantamento feito pela FAO mostrou que programas de reflorestamento com eucalipto existiam em mais de 90 países, inclusive na Bolívia e no Brasil. Muitas acusações são feitas ao eucalipto, que seria responsável por vários problemas ambientais. No Brasil, os eucaliptais chegam a ser chamados de “matas do silêncio”, de onde as aves estariam ausentes. A verdade é que, pelo menos no Brasil, até o momento não foi feito nenhum estudo sistemático para revelar se o eucalipto tem alguma utilização por animais silvestres.

Este estudo, conduzido na cidade de São Paulo (SP, sudeste do Brasil), onde os eucaliptos são comuns em parques, praças, clubes e escolas, procura determinar se essas plantas têm alguma importância na alimentação de aves urbanas, e faz parte de um estudo mais amplo sobre a utilização, por aves, dos recursos alimentares disponíveis no ambiente urbano.

Foi estudado um grupo de 15 plantas, dispostas em uma linha de 70 m de comprimento, em um bairro residencial pouco movimentado. A altura das plantas variava entre 10 e 15 m; ao redor havia árvores de outras espécies (principalmente Bauhinia, Persea, Spathodea, Tibouchina, Tabebuia, Malvaviscus, Morus), poucas das quais com mais de 7 m de altura. Entre out.1994 e set.1995 foram feitas observações diárias de 40-60 min, 10 dias por mês, pouco após o nascer do sol.

Houve 416 registros de alimentação, sendo observadas as seguintes formas de exploração de recursos oferecidos por Eucalyptus: 1. consumo de estruturas da própria planta, na copa (botões florais, néctar, frutos) ou no solo, sob as plantas (flores, sementes); 2. captura de invertebrados em meio a folhagem, folhas secas e cachos de frutos, sobre troncos e galhos e sob cascas; 3. utilização das plantas para observação dos arredores e como pontos de partida para vôos elásticos de captura de insetos voadores; 4. vôos contínuos ao redor e sobre a copa, para captura de insetos voadores.

Foram 25 as espécies que exploraram alguma estrutura oferecida pelos eucaliptos ou que os utilizaram como substrato de caça. As espécies que se alimentaram mais freqüentemente nas plantas ou ao seu redor foram Thraupis sayaca (116 registros), Coereba flaveola (83), Notiochelidon cyanoleuca (47), Eupetomena macroura (40), Thlypopsis sordida (23), Brotogeris tirica (20), Thraupis palmarum (19).

Houve disponibilidade de estruturas que servem como alimento para as aves (botão floral, flor, fruto verde, sementes) durante todo o ano. Os comportamentos alimentares relacionados aos eucaliptos representaram 30% de todos os registros de alimentação feitos ao longo do ano no local de estudo, e envolveram 71% das 35 espécies observadas alimentando-se na área.

Nas condições específicas em que o estudo foi feito, os eucaliptos parecem ter um papel fundamental na alimentação das aves urbanas. Assim, contrariamente ao que se pensa, o eucalipto em si não é prejudicial à fauna silvestre. Eventuais prejuízos derivariam principalmente dos métodos incorretos utilizados para o manejo das plantações, e isto ocorre não apenas com o eucalipto, mas com qualquer outro tipo de plantação que se faça.

O presente trabalho, desenvolvido em ambiente urbano, utilizando um mínimo de tempo por dia, material reduzido (binóculos e caderno de anotações) e sem qualquer custo operacional, mostra que é possível fazer pesquisa científica sob as condições mais adversas, sem depender de instituições e patrocínios, desde que a pessoa disponha de conhecimentos, disciplina e criatividade.

 

 

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